{"id":141308,"date":"2023-09-07T13:08:58","date_gmt":"2023-09-07T16:08:58","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/09\/07\/para-historiadoras-7-9-e-dia-de-reflexao-sobre-historia-do-brasil\/"},"modified":"2023-09-07T13:08:58","modified_gmt":"2023-09-07T16:08:58","slug":"para-historiadoras-7-9-e-dia-de-reflexao-sobre-historia-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/09\/07\/para-historiadoras-7-9-e-dia-de-reflexao-sobre-historia-do-brasil\/","title":{"rendered":"Para historiadoras, 7\/9 \u00e9 dia de reflex\u00e3o sobre hist\u00f3ria do Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Em 2023, o Brasil completa 201 anos da Independ\u00eancia, comemorada no dia 7 de setembro. A data, de acordo com historiadoras entrevistadas pela Ag\u00eancia Brasil, \u00e9 um momento de reflex\u00e3o sobre a hist\u00f3ria do pa\u00eds e sobre quem ainda segue exclu\u00eddo dessa hist\u00f3ria e o que \u00e9 preciso fazer para reduzir as desigualdades. Depois de dois s\u00e9culos, \u00e9 poss\u00edvel dizer que o Brasil \u00e9 independente? Como devem ser as comemora\u00e7\u00f5es dessa data para que sejam mais plurais e diversas?\u00a0<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>\u201c\u00c9 uma revisita\u00e7\u00e3o contundente que precisa ser feita. Durante muito tempo, a perspectiva cr\u00edtica ficava circunscrita a uma cr\u00edtica, por exemplo \u00e0 figura de Dom Pedro I, ao fato de ele passar mal ou n\u00e3o. Isso \u00e9 o de menos. Falar s\u00f3 sobre Dom Pedro n\u00e3o resolve o problema da independ\u00eancia do Brasil de uma perspectiva mais cr\u00edtica\u201d, diz a historiadora Yna\u00ea Lopes dos Santos, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria \u00e9 contada no livro 1822, de Laurentino Gomes. Dom Pedro I estaria\u00a0com dor de barriga devido, possivelmente, \u00e0 ingest\u00e3o de \u00e1gua contaminada ou algum alimento estragado. O grito da independ\u00eancia \u00e0s margens do Ipiranga, que inclusive \u00e9 narrado no hino nacional brasileiro, teria sido apenas simb\u00f3lico.\u00a0<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso entender os outros sujeitos que participaram. Mulheres que lutaram nos campos de batalha nos diferentes lugares do Brasil, como as sociedades ind\u00edgenas na sua diversidade se articularam ou n\u00e3o ao processo de independ\u00eancia, a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra. \u00c9 preciso tomar a independ\u00eancia pelo que ela foi, um processo polif\u00f4nico\u201d, acrescenta Lopes.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo a historiadora e professora Marize Guarani, uma das fundadoras da Associa\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena Aldeia Maracan\u00e3, o 7 de setembro com a constitui\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds \u00e9, na verdade, para os ind\u00edgenas, a consolida\u00e7\u00e3o de um processo de exclus\u00e3o, silenciamento e genoc\u00eddio, que vinha desde 1.500, com a chegada dos portugueses. Esse processo continua, segundo a historiadora, at\u00e9 os dias de hoje.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cTodo esse per\u00edodo vai ter uma nega\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas, vai-se construindo uma narrativa de que n\u00f3s n\u00e3o temos nada para oferecer, de que a gente n\u00e3o gosta de trabalho, de que \u00e9 muita terra para pouco \u00edndio. Quando se fala do povo ind\u00edgena fala-se que \u00e9 selvagem, mas selvagem s\u00f3 quer dizer aquele que vive na selva. E nem \u00e9 mais assim. Hoje, 60% da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena vive na cidade, ou seja, foi retirada de seus territ\u00f3rios e continuam sendo sistematicamente retiradas desse territ\u00f3rio ao longo de todo esse processo de hist\u00f3ria do Brasil\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), s\u00e3o 1.693.535 ind\u00edgenas no pa\u00eds, o que representa 0,83% do total de habitantes. A estimativa \u00e9 de que antes da chegada dos portugueses, eram mais de 1,4 mil povos e milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, segundo Marize Guarani, vai-se construindo uma narrativa de que os ind\u00edgenas s\u00e3o \u201cavessos ao progresso\u201d, e com isso, mais recentemente, na ditadura militar, entre 1964 e 1985, com a interioriza\u00e7\u00e3o, vai-se expulsando os ind\u00edgenas de seus territ\u00f3rios. \u201cSempre uma narrativa que n\u00f3s \u00e9ramos a barreira para o progresso, porque olhavam a mata como algo que n\u00e3o era progresso. Mas me diz uma coisa: como voc\u00ea vai conseguir viver num mundo sem as florestas? Floresta \u00e9 a maior usina de chuva\u201d.<\/p>\n<p>O modo de viver tradicional ind\u00edgena traz uma oposi\u00e7\u00e3o ao sistema capitalista no qual estamos inseridos, por isso, esse sistema \u00e9 t\u00e3o perseguido, conforme defende Guarani. \u201cA terra era produzida comunalmente, da terra era retirado o seu sustento, de forma comum, comunal. Todos, coletivamente, plantavam, colhiam, produziam coletivamente, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m que era mais do que o outro, n\u00e3o existia ningu\u00e9m que comia mais do que o outro, e isso continua existindo dentro dos aldeamentos. Eu sempre fico pensando que o estado sempre negou toda forma coletiva, toda forma de produ\u00e7\u00e3o de pensamento, de religiosidade nossa exatamente porque elas entram em choque com essa sociedade capitalista\u201d,.\u00a0<\/p>\n<p>A historiadora Wlamyra Albuquerque, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica que as comemora\u00e7\u00f5es da Independ\u00eancia fazem parte de uma esp\u00e9cie de ritual para constituir o estado nacional. \u201cEle precisa ter um corpo administrativo, precisa ter um corpo militar e precisa ter uma hist\u00f3ria do seu nascimento, precisa ter uma mitologia de constitui\u00e7\u00e3o do estado nacional. Toda na\u00e7\u00e3o liberal nascida nos s\u00e9culos 18 e 19 constroem um mito sobre sua funda\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, ainda segundo Wlamyra Albuquerque, os desfiles n\u00e3o s\u00e3o a \u00fanica forma de comemora\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 importante olhar para as comemora\u00e7\u00f5es de 2 de julho, a gente vai ver que existe forma de civismo popular em que essa for\u00e7a b\u00e9lica, essa for\u00e7a militar, n\u00e3o ocupa a centralidade das comemora\u00e7\u00f5es. Eu acho que precisa ser assumido pelo estado brasileiro o plano de celebra\u00e7\u00e3o desse pertencimento nacional, de celebra\u00e7\u00e3o da nossa brasilidade, em que essas institui\u00e7\u00f5es militares n\u00e3o estejam no centro das festas, e a\u00ed \u00e9 preciso repensar esse formato de 7 de setembro com participa\u00e7\u00e3o popular, [olhando para as] demandas das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, demandas das popula\u00e7\u00f5es negras e pobres, das popula\u00e7\u00f5es quilombolas, que elas venham para o centro desse processo de constitui\u00e7\u00e3o dessa singularidade que \u00e9 o Brasil\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>O dia 2 de julho, citado por Wlamyra Albuquerque, \u00e9 a comemora\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia na Bahia. A data marca a expuls\u00e3o, feita em 1823, das tropas portuguesas que ainda resistiam \u00e0 independ\u00eancia declarada no ano anterior, em um movimento que contou com a participa\u00e7\u00e3o popular. Qualquer autoridade lusitana remanescente foi extirpada do poder. A celebra\u00e7\u00e3o tem um car\u00e1ter mais popular, por exemplo, que os desfiles militares.\u00a0<\/p>\n<p>Outra a\u00e7\u00e3o importante na data \u00e9 o Grito dos Exclu\u00eddos e Exclu\u00eddas, manifesta\u00e7\u00e3o que re\u00fane, desde 1995, movimentos sociais e grupos que n\u00e3o se sentem representados pelos desfiles ou pela hist\u00f3ria hegem\u00f4nica da Independ\u00eancia do Brasil. A proposta nasceu em uma reuni\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o do processo da 2\u00aa Semana Social Brasileira, promovida pela Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O dia 7 de setembro foi escolhido para a realiza\u00e7\u00e3o do Grito com a inten\u00e7\u00e3o de fazer um contraponto ao Grito da Independ\u00eancia, proclamado pelo pr\u00edncipe D. Pedro I, em 1822.\u00a0<\/p>\n<p>O Grito dos Exclu\u00eddos e Exclu\u00eddas tem como objetivo \u201clevar \u00e0s ruas e pra\u00e7as, os gritos ocultos e sufocados, silenciosos e silenciados, que emergem dos campos, por\u00f5es e periferias da sociedade. Trata-se de revelar, \u00e0 luz do dia e diante da opini\u00e3o p\u00fablica, as dores e sofrimentos que governos e autoridades tendem a varrer para debaixo do tapete. Trazer \u00e0 superf\u00edcie os males e correntes profundas que atormentam o dia-a-dia da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda\u201d, conforme o site do movimento.\u00a0<\/p>\n<p>Apesar das cr\u00edticas, segundo\u00a0Wlamyra\u00a0Albuquerque, a data \u00e9 importante para que seja feita uma reflex\u00e3o. \u201cParar para pensar e discutir o que somos para n\u00f3s mesmos e em rela\u00e7\u00e3o ao mundo. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que vai estar sempre aberta: o que \u00e9 independ\u00eancia? O que \u00e9 liberdade? O que \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o? Essas quest\u00f5es v\u00e3o estar sempre abertas porque a hist\u00f3ria \u00e9 din\u00e2mica e a gente vive uma configura\u00e7\u00e3o global muito diferente e in\u00e9dita do que todos n\u00f3s conhecemos. As outras gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o viveram uma sociedade em que a mudan\u00e7a que os blocos pol\u00edticos econ\u00f4micos se deem de maneira t\u00e3o acentuada\u201d, diz.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0A historiadora Adriana Barreto, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) complementa: \u201cTodas essas celebra\u00e7\u00f5es s\u00e3o inven\u00e7\u00f5es culturais, elaboradas conscientemente ao longo do tempo\u201d, diz e acrescenta: \u201cO que quero dizer com isso? Que do mesmo modo que essas celebra\u00e7\u00f5es s\u00e3o inventadas para atender a certas demandas da sociedade, em uma determinada \u00e9poca, elas tamb\u00e9m podem ser substitu\u00eddas e reinventadas caso grande parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se veja mais representada nelas\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Perguntadas se somos uma na\u00e7\u00e3o independente, as historiadoras divergem. Marize Guarani diz que ainda estamos distantes. Ela ressalta o potencial produtivo e criativo do Brasil e o quanto a na\u00e7\u00e3o acaba perdendo quando busca apenas se inserir em uma ordem capitalista que n\u00e3o visa o seu desenvolvimento. \u201cEu digo que esse processo de invas\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o continua at\u00e9 hoje. A gente fala de independ\u00eancia, mas que independ\u00eancia a gente est\u00e1 falando? A gente depende das bolsas de valores mundiais, a gente depende. Querem que o Brasil seja um pa\u00eds de monocultura, destru\u00edram as terras deles e n\u00e3o querem destruir mais, ent\u00e3o, destroem a do outro\u201d, diz.\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 Barreto \u00e9 categ\u00f3rica, o Brasil \u00e9 independente: \u201cClaro, totalmente! Inclusive, acredito que assumir essa nossa condi\u00e7\u00e3o seja um passo crucial para \u2013 tal como acontece com as pessoas, individualmente \u2013 olharmos sem romantiza\u00e7\u00f5es o passado. N\u00e3o podemos virar apressadamente as p\u00e1ginas da hist\u00f3ria. Porque esse passado, em toda sua complexidade, nos constitui como sociedade e conhec\u00ea-lo bem, identificando nomes e a\u00e7\u00f5es de pessoas e grupos, \u00e9 um passo chave para \u2013 por meio de responsabiliza\u00e7\u00f5es \u2013 termos a chance de efetivamente construirmos um futuro\u201d.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/2059615\/para-historiadoras-79-e-dia-de-reflexao-sobre-historia-do-brasil?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2023, o Brasil completa 201 anos da Independ\u00eancia, comemorada no dia 7 de setembro.<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":141309,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-141308","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141308","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=141308"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/141308\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/141309"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=141308"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=141308"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=141308"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}