{"id":137332,"date":"2023-08-10T05:08:58","date_gmt":"2023-08-10T08:08:58","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/08\/10\/morre-aderbal-freire-filho-um-dos-grandes-diretores-de-teatro-brasileiro\/"},"modified":"2023-08-10T05:08:58","modified_gmt":"2023-08-10T08:08:58","slug":"morre-aderbal-freire-filho-um-dos-grandes-diretores-de-teatro-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/08\/10\/morre-aderbal-freire-filho-um-dos-grandes-diretores-de-teatro-brasileiro\/","title":{"rendered":"Morre Aderbal Freire-Filho, um dos grandes diretores de teatro brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; Morreu nesta quarta-feira (9) o diretor teatral Aderbal Freire-Filho, aos 82 anos, um dos grandes encenadores brasileiros do s\u00e9culo 20, devolveu \u00e0 palavra a for\u00e7a da cena. Em uma centena de produ\u00e7\u00f5es para o teatro, foi mestre do encontro do liter\u00e1rio com a teatralidade.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>O conhecido encenador era casado com a atriz\u00a0 Marieta Severo.<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o foi confirmada por sua assessoria de imprensa. Ele estava internado h\u00e1 meses devido a um acidente vascular cerebral.<\/p>\n<p>Articulado e espirituoso, participou ativamente da vida cultural do pa\u00eds. Contador de hist\u00f3rias, questionador, falava como quem conversava com os fil\u00f3sofos, dramaturgos e encenadores que o precederam.<\/p>\n<p>Em uma edi\u00e7\u00e3o do &#8220;antiprograma&#8221; Arte do Artista, que apresentou na TV Brasil, deitou-se muito \u00e0 vontade com seu notebook no ch\u00e3o do cen\u00e1rio feito de peda\u00e7os de pe\u00e7as do seu repert\u00f3rio, para anunciar o papo com editores de uma revista impressa de cr\u00edtica e est\u00e9tica. Ali, v\u00edamos enla\u00e7ar o s\u00e9rio e o humor, a erudi\u00e7\u00e3o e o ch\u00e3o do palco.<\/p>\n<p>Nascido em Fortaleza, em 1941, filho do dono de uma livraria que faliu, tornou-se inventor nos palcos cariocas depois que preferiu o teatro \u00e0 advocacia. J\u00e1 atuava desde os 13 anos quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1970.<\/p>\n<p>O aperto para pagar o aluguel o impeliu \u00e0 dire\u00e7\u00e3o. Trabalhava ent\u00e3o como ator, com os diretores Nelson Xavier e Cecil Thir\u00e9, em O Segredo do Velho Mundo, quando escreveu e montou uma adapta\u00e7\u00e3o de Flicts, do Ziraldo, para ser apresentada nos hor\u00e1rios livres do teatro que ocupavam na Lagoa.<\/p>\n<p>O mesmo artista que criou um dos site-specific mais emblem\u00e1ticos da historiografia teatral brasileira, A Morte de Danton, de 1977, tamb\u00e9m p\u00f4s em cena obras liter\u00e1rias na \u00edntegra, os chamados romance-em-cena, como O que Diz Moleiro (2004), de Dinis Machado.<\/p>\n<p>Tantas vias criativas atestam a inquieta\u00e7\u00e3o de um experimentador que cultivou o prazer de trabalhar sobre a escrita de outros autores com um sentido pr\u00f3prio de fidelidade. Buscava a compreens\u00e3o da ideia de teatro daquele texto para melhor express\u00e1-la cenicamente.<\/p>\n<p>Dizia preferir montar os dramaturgos vivos: &#8220;Fico na porta do teatro perguntando se Shakespeare chegou&#8221;, brincava.<\/p>\n<p>Devoto debochado de Brecht, cogitava que, se o alem\u00e3o fosse seu contempor\u00e2neo, teria se interessado pelas combina\u00e7oes entre o dram\u00e1tico e o \u00e9pico, tal como ele. Praticou, portanto, uma fidelidade desejante, em muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos anos 1970 e 1980, Aderbal se dedicou a encenar uma gera\u00e7\u00e3o de dramaturgos brasileiros como Flavio Marcio, Aldomar Conrado, Vianinha e Leilah Assump\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda assinava Aderbal J\u00fanior quando dirigiu Apareceu a Margarida (1973), primeira obra de Roberto Atahyde, uma representa\u00e7\u00e3o do terror do autoritarismo na educa\u00e7\u00e3o, em meio \u00e0 intensa repress\u00e3o pol\u00edtica. Teve a temporada interrompida pela censura.<\/p>\n<p>Embora o sucesso tenha sido creditado \u00e0 estrela Mar\u00edlia P\u00eara, ali Aderbal j\u00e1 dava dire\u00e7\u00e3o ao seu teatro: arranjar palavras, luz, sons e espa\u00e7o como mat\u00e9ria bruta para compor viagens imaginativas, cr\u00edticas \u00e0 viol\u00eancia do exerc\u00edcio de poder.<\/p>\n<p>Com esse esp\u00edrito cr\u00edtico, desceu os dez metros da cratera de um metr\u00f4 do Rio, ainda em constru\u00e7\u00e3o, para fazer dramaturgia com o espa\u00e7o em A Morte de Danton (1978), de Buchner. Uma met\u00e1fora concreta das for\u00e7as revolucion\u00e1rias subterr\u00e2neas no enfrentamento da ditadura.<\/p>\n<p>Para Aderbal, a liberdade n\u00e3o exclu\u00eda a precis\u00e3o. Na dire\u00e7\u00e3o de atores e atrizes, julgava necess\u00e1rio que cada artista desenvolvesse sua compreens\u00e3o do espet\u00e1culo, como coautor, para que na atua\u00e7\u00e3o n\u00e3o escapasse uma ideia equivocada da cena.<\/p>\n<p>N\u00e3o via vantagens no &#8220;espontane\u00edsmo&#8221;. Marcava a movimenta\u00e7\u00e3o como um core\u00f3grafo, por mais que essa pr\u00e1tica n\u00e3o fosse bem vista no teatro contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Quando Julia, a fict\u00edcia esposa do revolucion\u00e1rio franc\u00eas em A Morte de Danton, envenena-se, sai de cena subindo \u00e0 superf\u00edcie do metr\u00f4. Para Aderbal, esse era um exemplo de solu\u00e7\u00e3o \u00e0 qual dificilmente chegaria pela improvisa\u00e7\u00e3o, ou somente ap\u00f3s uma s\u00e9rie de sensos comuns como deixar-se cair ou deitar-se.<\/p>\n<p>O que lhe interessava era a expressividade.<\/p>\n<p>Por M\u00e3o na Luva, de 1984, com Marco Nanini e Juliana Carneiro da Cunha, conquistou dois pr\u00eamios Mambembes (MinC). Vivia um per\u00edodo de intensa troca com a Am\u00e9rica Latina, principalmente com o Uruguai, onde levou o pr\u00eamio de melhor espet\u00e1culo estrangeiro de 1985.<\/p>\n<p>Em 1990, fundou o Centro de Demoli\u00e7\u00e3o e de Constru\u00e7\u00e3o do Espet\u00e1culo, em uma ocupa\u00e7\u00e3o-recupera\u00e7\u00e3o do Teatro Glaucio Gil, materializando a ideia de que no teatro &#8220;n\u00e3o h\u00e1 regras, as formas s\u00e3o demolidas e reconstru\u00eddas&#8221;.<\/p>\n<p>L\u00e1 estreou A mulher carioca aos 22 anos, romance de Jo\u00e3o de Minas que Aderbal achara anos antes em um sebo e comparara a Nelson Rodrigues. As 210 p\u00e1ginas do livro tornaram-se quatro horas de um romance-em-cena que investia radicalmente na narratividade e renderia ao diretor o Pr\u00eamio Shell.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes conduziu o p\u00fablico pelas salas do Pal\u00e1cio do Catete para contar a trajet\u00f3ria de Get\u00falio Vargas, em O Tiro que Mudou a Hist\u00f3ria (1991), e espalhou cenas de Tiradentes, Inconfid\u00eancia no Rio (1992) por museus, ruas e por\u00f5es, convidando grupos de espectadores a realizarem o percurso em \u00f4nibus fretados.<\/p>\n<p>Em 1994, Aderbal passa a dirigir o Teatro Carlos Gomes, onde montou A Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues.<\/p>\n<p>Com tantos nomes de vulto em sua trajet\u00f3ria, \u00e9 imposs\u00edvel sintetizar todo o frisson que suas produ\u00e7\u00f5es causaram &#8211; como o Hamlet despojado de Wagner Moura, em 2008, que irritou parte da cr\u00edtica e foi dito &#8220;o Hamlet de uma gera\u00e7\u00e3o&#8221; por outra.<\/p>\n<p>Nos anos 2000, tamb\u00e9m ganharam for\u00e7a seus romances-em-cena, como P\u00facaro B\u00falgaro (2006), de Campos de Carvalho, e Moby Dick (2009), de Melville. O monstruoso n\u00e3o era constru\u00eddo no palco, onde quatro atores narravam, mas provocado na imagina\u00e7\u00e3o do espectador.<\/p>\n<p>Aderbal j\u00e1 se definiu como core\u00f3grafo de palavras, signos e a\u00e7\u00f5es. Foi um experimentador das mat\u00e9rias do mundo, o que talvez seja uma boa defini\u00e7\u00e3o para um encenador de teatro.<\/p>\n<p>A bonita parceria com Marieta Severo chegou a pe\u00e7as como As Centen\u00e1rias, de Newton Moreno (2009), e a trag\u00e9dia libanesa Inc\u00eandios (2013). Mantiveram uma rela\u00e7\u00e3o de duas d\u00e9cadas, vivendo em resid\u00eancias separadas at\u00e9 que Aderbal sofreu um AVC em 2020 e ela montou uma UTI em casa para cuidar do marido.<\/p>\n<p>Em um de seus trabalhos derradeiros, dirigiu Luc\u00e9lia Santos e Beatriz Azevedo no Cabar\u00e9 Transpo\u00e9tico (2019), inspirado pelo Cabar\u00e9 Voltaire su\u00ed\u00e7o, onde vanguardistas refugiavam-se em meio \u00e0 Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, acirrou a cr\u00edtica social em sua fala e escrita, e lamentou a desconex\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com uma arte que, nos anos de chumbo, fizera-se porta-voz da luta pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A quem lhe perguntasse sobre a import\u00e2ncia do teatro para a sociedade, respondia: nenhuma. A quem se preocupasse com o futuro dessa arte, contudo, professava que chegaria o dia em que tudo seria feito por aplicativo &#8211; menos o teatro.<br \/>Com Aderbal, pudemos imaginar vivamente.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Fama<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/2049942\/morre-aderbal-freire-filho-um-dos-grandes-diretores-de-teatro-brasileiro-aos-82?utm_source=rss-fama&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; Morreu nesta quarta-feira (9) o diretor teatral Aderbal Freire-Filho, aos 82 anos, um<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":137333,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-137332","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fama-e-tv"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137332","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=137332"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137332\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/137333"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=137332"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=137332"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=137332"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}