{"id":135341,"date":"2023-07-26T17:10:02","date_gmt":"2023-07-26T20:10:02","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/07\/26\/os-segredos-da-playlist-de-hitler-ditador-ouvia-russos-judeus-e-gays-na-vespera-da-morte\/"},"modified":"2023-07-26T17:10:02","modified_gmt":"2023-07-26T20:10:02","slug":"os-segredos-da-playlist-de-hitler-ditador-ouvia-russos-judeus-e-gays-na-vespera-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/07\/26\/os-segredos-da-playlist-de-hitler-ditador-ouvia-russos-judeus-e-gays-na-vespera-da-morte\/","title":{"rendered":"Os segredos da playlist de Hitler: ditador ouvia russos, judeus e gays na v\u00e9spera da morte"},"content":{"rendered":"<p>Quando Hitler mudou-se definitivamente para o bunker &#8220;Wolfsschanze&#8221; [Toca do Lobo], em 16 de janeiro de 1945, ele j\u00e1 sabia que provavelmente n\u00e3o sairia mais dali.<\/p>\n<p>Situado nos jardins da chancelaria do Reich, em Berlim, a 8,5 metros de profundidade, tinha 120 metros quadrados de \u00e1rea distribu\u00eddos por 30 salas protegidas por 4 metros de concreto. Destas, a sua sala preferida era a que tinha um retrato de Frederico, o Grande, o rei-flautista da Pr\u00fassia no s\u00e9culo 18, seu \u00eddolo.<\/p>\n<\/p>\n<p>Ali tamb\u00e9m ele podia desfrutar de um de seus grandes prazeres: ouvir m\u00fasica. Enquanto as tropas russas aproximavam-se para o bombardeio final sobre Berlim, Hitler se acalmava escutando m\u00fasica. Levara consigo um pacote de bolachas 78 rota\u00e7\u00f5es com registros de cria\u00e7\u00f5es musicais de seus amados Beethoven, Richard Wagner e Anton Bruckner.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>Surpresas na playlist de Hitler incluem inimigos do regime<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>At\u00e9 a\u00ed, esta hist\u00f3ria \u00e9 conhecida desde 2007, ano em que a revista alem\u00e3 &#8220;Der Spiegel&#8221; publicou mat\u00e9ria dando conta da descoberta destes discos por um soldado russo mel\u00f4mano que os levou pra casa em maio de 1945, logo ap\u00f3s a morte de Hitler. Na \u00e9poca, ningu\u00e9m prestou muita aten\u00e7\u00e3o neles, coisa que agora faz Fred Brouwers, 75 anos, jornalista musical da r\u00e1dio e televis\u00e3o belga, apresentador por 35 anos do reputado Concurso Internacional Rainha Elisabeth, em Bruxelas.<\/p>\n<\/p>\n<p>Se o repert\u00f3rio \u00e9 previs\u00edvel, as surpresas se acumulam em rela\u00e7\u00e3o aos m\u00fasicos que atuam nos bolach\u00f5es. O livro Beethoven no Bunker, originalmente publicado em holand\u00eas em 2019, a tempo de comemorar os 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial em 2020, s\u00f3 agora \u00e9 lan\u00e7ado na vers\u00e3o inglesa, que atinge praticamente o planeta inteiro.<\/p>\n<\/p>\n<p>Nascido em Louvain, Fred Brouwers se confessa um leg\u00edtimo filho de maio de 68. &#8220;Naquele ano m\u00e1gico, eu era aluno de l\u00ednguas germ\u00e2nicas na Universidade de Louvain, onde nasci. Protestos estudantis estavam chovendo em Paris; em Louvain houve s\u00f3 um leve chuvisco. Como estudantes, nos rebelamos contra toda autoridade&#8221;, escreve na introdu\u00e7\u00e3o de seu livro. &#8220;Isso se estendeu ao reino da minha maior paix\u00e3o, a m\u00fasica. Os music\u00f3logos explicaram que Beethoven era um g\u00eanio musical e um inimigo da autoridade ditatorial, como ficou claro em sua Terceira Sinfonia&#8221;.<\/p>\n<\/p>\n<p>As primeiras surpresas foram as presen\u00e7as de dois russos &#8211; ent\u00e3o inimigos do Reich &#8211; na playlist hitleriana: o pianista Emil Gilels (1916-1985) e o maestro Kirill Kondrashin (1914-1981). Beethoven comparece com a &#8220;Nona Sinfonia&#8221; e duas sonatas para piano &#8211; a no. 24 e a no. 27. Mas o pianista \u00e9 Artur Schnabel (1882-1951), o c\u00e9lebre m\u00fasico judeu austr\u00edaco que fugiu da Alemanha em 1933.<\/p>\n<\/p>\n<p>Ele conseguiu escapar, &#8220;mas sua m\u00e3e morreu no gueto de Therensiestadt&#8221;, escreve Brouwers, &#8220;Em outras palavras, Hitler via o povo judeu como &#8220;untermenschen&#8221; [subumanos], mas estava, no entanto, disposto a ouvir sua m\u00fasica (&#8230;) Claro que isso teria abalado sua credibilidade aos olhos de seus partid\u00e1rios. \u00c9 por isso que ele manteve os discos cuidadosamente trancados a chave no bunker&#8221;.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>L\u00edder nazista ouvia na surdina opositores declarados<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>A \u00f3pera foi uma das paix\u00f5es do F\u00fchrer. Mas o que fazia em sua discoteca essencial a grava\u00e7\u00e3o da &#8220;Morte de Boris Godunov&#8221;, da \u00f3pera de Mussorgsky? Ainda mais com o baixo Feodor Chaliapin? &#8220;Tchaikovsky era homossexual&#8221;, lembra Brouwers. Mesmo assim, \u00e9 respons\u00e1vel pela maior surpresa da playlist de Hitler no crep\u00fasculo do Reich.<\/p>\n<\/p>\n<p>Hitler ouviu muitas vezes o seu &#8220;Concerto para Violino&#8221; naquele abril de 1945 em uma vers\u00e3o impens\u00e1vel para a cartilha nazista, com o violinista judeu polon\u00eas Bronislaw Huberman (1882-1947), que fugiu da Europa em 1937. Celebrizou-se por mais do que simplesmente &#8220;ser judeu&#8221;, escreve Brouwers.<\/p>\n<\/p>\n<p>&#8220;Ele se op\u00f4s ativamente ao nazismo e escreveu cartas a v\u00e1rios importantes intelectuais alem\u00e3es e artistas pedindo-lhes para enfrentar o regime. Foi oficialmente declarado inimigo p\u00fablico do Terceiro Reich. Cereja envenenada neste bolo indigesto para os seguidores do F\u00fchrer: Huberman foi o respons\u00e1vel pela funda\u00e7\u00e3o da Filarm\u00f4nica de Israel em 1947 (nascida como Filarm\u00f4nica da Palestina). Estima-se que Huberman salvou mais de mil judeus das garras nazistas. Mesmo assim, era ouvido com fervor e admira\u00e7\u00e3o solando o &#8220;Concerto para violino e Orquestra&#8221; de Tchaikovsky no bunker.<\/p>\n<\/p>\n<p>Hitler adorava Anton Bruckner (1824-1896), um dos dois grandes sinfonistas austr\u00edacos da segunda metade do s\u00e9culo 19, ao lado de Mahler. Bruckner era austr\u00edaco como ele (nasceram em pequenas cidades pr\u00f3ximas). Em 1\u00ba. de maio de 1945, a r\u00e1dio p\u00fablica do Reich anunciou a morte de Hitler &#8211; ele se suicidara com um tiro no bunker em 30 de abril de 1945 &#8211; e em seguida transmitiu o imenso Adagio (mais de 22 minutos) da S\u00e9tima Sinfonia de Bruckner numa interpreta\u00e7\u00e3o tecnicamente revolucion\u00e1ria da Filarm\u00f4nica de Berlim, com seu titular Wilhelm Furtw\u00e4ngler, realizada pela Telefunken com seus ent\u00e3o nov\u00edssimos microfones. Ainda hoje a qualidade t\u00e9cnica desta grava\u00e7\u00e3o surpreende.<\/p>\n<\/p>\n<p>Bruckner comp\u00f4s este Adagio pensando especificamente em Wagner, que morreu em 1883, enquanto ele compunha a sinfonia. A inten\u00e7\u00e3o fica expl\u00edcita porque ele usa neste Adagio sublime as &#8220;tubas wagnerianas&#8221;, instrumento idealizado por Wagner que se parece com a trompa; seu registro se parece com o do trombone, anota o saudoso Henrique Autram Dourado em seu precioso &#8220;Dicion\u00e1rio de termos e express\u00f5es musicais&#8221;.<\/p>\n<\/p>\n<p>Ele nos deixou no \u00faltimo dia 3, m\u00fasico e pedagogo essencial. Este maravilhoso Adagio ficou politicamente marcado pela liga\u00e7\u00e3o umbilical com o nazismo, que parte de Wagner e Bruckner. O cineasta Luchino Visconti, entretanto, resgatou-o usando-o na trilha de seu filme \u0091Senso&#8221; (no Brasil, &#8220;Sedu\u00e7\u00e3o da Carne&#8221;), de 1954.<\/p>\n<\/p>\n<p>Outros &#8220;hits&#8221; surpreendentes da discoteca de Hitler no bunker: grava\u00e7\u00f5es de obras de dois compositores judeus estigmatizados pelo nazismo, como Mendelssohn e Offenbach. E v\u00e1rios &#8220;russos desprez\u00edveis&#8221; com Rachmaninoff e Borodin.<\/p>\n<\/p>\n<p>Abaixo, uma playlist m\u00ednima para voc\u00ea ouvir e se surpreender com os bolach\u00f5es que Hitler levou e guardou a sete chaves em seu \u00faltimo ref\u00fagio antes da derrota final.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>Adagio da &#8220;Sinfonia no. 7?, de Anton Bruckner, com a Filarm\u00f4nica de Berlim<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>Regida por Wilhelm Furtw\u00e4ngler, grava\u00e7\u00e3o de 1942.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>Sonata no. 24, em f\u00e1 sustenido maior, op. 78, de Beethoven: Adagio cantabile &#8211; Allegro ma non troppo &#8211; e Allegro vivace.<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>Com Artur Schnabel. Grava\u00e7\u00e3o integral das 32 sonatas, realizada entre 1932 e 1935.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>Concerto para Violino e Orquestra em r\u00e9 maior opus 35, de Tchaikovsky, com Bronislaw Huberman (violino) e Orquestra da \u00d3pera Estatal de Berlim<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>Regida por William Steinberg (1899-1978). Movimentos: Allegro moderato &#8211; Canzonetta.Andante &#8211; e Finale. Allegro vivac\u00edssimo. Grava\u00e7\u00e3o de 28 de dezembro de 1928.<\/p>\n<\/p>\n<p><b>Ningu\u00e9m \u00e9 de ferro<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>Tem m\u00fasica para todos os momentos. Hitler levou pro bunker final um pacote de grava\u00e7\u00f5es de seu \u00eddolo preferencial no reino das operetas, pra balan\u00e7ar o esqueleto e quem sabe dan\u00e7ar com Eva. Enquanto a Fran\u00e7a transformou-se em quintal dos nazistas durante a maior parte da Segunda Guerra Mundial, Hitler ansiava por uma folga para esticar em Paris e frequentar seu cabar\u00e9 preferido, o Maxim\u0092s.<\/p>\n<\/p>\n<p>Os cabar\u00e9s, que fizeram a gl\u00f3ria da Rep\u00fablica de Weimar na Alemanha entre 1919 e 1932, continuaram a sobreviver a duras penas durante o Reich. A maioria dos performers, como Paul Abraham (1892-1960), sofreu barbaridades com Goebbels. Abraham merece um cap\u00edtulo no livro de Brouwer.<\/p>\n<\/p>\n<p>Misturou o jazz com a m\u00fasica de opereta \u00e0 alem\u00e3, e fez um sucesso danado&#8230; at\u00e9 ser inclu\u00eddo na &#8220;entartete musik&#8221;, a m\u00fasica degenerada, pelos nazistas, em 1937. Foi para a Fran\u00e7a, dali para Cuba e depois para os Estados Unidos, onde reinou absoluto. Tr\u00eas grava\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<\/p>\n<p><b>Servi\u00e7o:<\/b><\/p>\n<\/p>\n<p>Livro &#8220;Beethoven in the Bunker&#8221;, de Fred Brouwers, 272 pgs., Other Press, 2023.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Mundo<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/politica\/2045031\/os-segredos-da-playlist-de-hitler-ditador-ouvia-russos-judeus-e-gays-na-vespera-da-morte?utm_source=rss-mundo&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Hitler mudou-se definitivamente para o bunker &#8220;Wolfsschanze&#8221; [Toca do Lobo], em 16 de janeiro<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":135342,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-135341","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/135341","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=135341"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/135341\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/135342"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=135341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=135341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=135341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}