{"id":13406,"date":"2021-05-23T19:17:08","date_gmt":"2021-05-23T22:17:08","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/05\/23\/mc-kevin-o-menino-que-encantou-a-quebrada-viveu-extremos-do-brasil\/"},"modified":"2021-05-23T19:17:08","modified_gmt":"2021-05-23T22:17:08","slug":"mc-kevin-o-menino-que-encantou-a-quebrada-viveu-extremos-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/05\/23\/mc-kevin-o-menino-que-encantou-a-quebrada-viveu-extremos-do-brasil\/","title":{"rendered":"MC Kevin, o menino que encantou a quebrada, viveu extremos do Brasil"},"content":{"rendered":"<p>T\u00e3o breve quanto apote\u00f3tica, a trajet\u00f3ria de Kevin do Nascimento Bueno, 23, o MC Kevin, ilustra os efeitos da extrema desigualdade brasileira e da falta de perspectiva de crian\u00e7as e jovens pobres, pretos e perif\u00e9ricos, que s\u00e3o maioria no pa\u00eds.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Produto da ind\u00fastria do funk, Kevin viveu dois extremos desse Brasil e queria inspirar outros meninos como ele, sem oportunidade ou apoio, a sonhar alto. A atual rotina fren\u00e9tica de curti\u00e7\u00e3o e ostenta\u00e7\u00e3o de carros, motos e grifes de luxo era o contraponto radical de uma inf\u00e2ncia e parte da adolesc\u00eancia de escassez profunda.<\/p>\n<p>O MC morreu no \u00faltimo domingo (15), ao cair do quinto andar de um hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, para onde havia viajado com a mulher, a advogada Deolane Bezerra, e uma trupe de colegas e amigos para uma apresenta\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia ainda investiga as circunst\u00e2ncias da morte do funkeiro.<\/p>\n<p>Nascido na Vila Ede, bairro de classe baixa da zona norte da capital paulista, Kevin cresceu numa fam\u00edlia em situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade, na qual tudo era &#8220;pra ontem&#8221;.<\/p>\n<p>A m\u00e3e solo, Valqu\u00edria Nascimento, se desdobrava para sustentar os cinco filhos. Trabalhava diariamente, em geral em per\u00edodo dobrado, faxinando quartos de um hotel. E contava com um projeto social de freiras, ao lado da escola dos filhos, para o contraturno escolar das crian\u00e7as, raramente ofertado no sistema p\u00fablico. Vizinhos complementavam a aten\u00e7\u00e3o a Kevin e a seus irm\u00e3os no restante das longas horas em que a m\u00e3e estava fora.<\/p>\n<p>Em casa, faltava um pouco de tudo: desde mistura para o arroz com feij\u00e3o at\u00e9 um par de t\u00eanis para os p\u00e9s do futuro MC. Por vezes, faltou at\u00e9 o teto, e a fam\u00edlia foi despejada mais de uma vez das casas que ocupou.<\/p>\n<p>Apesar das dificuldades, Kevin \u00e9 lembrado por amigos de inf\u00e2ncia, da escola e do bairro, como um menino alegre e brincalh\u00e3o, perto de quem n\u00e3o havia tempo feio. &#8220;Ele alegrava todo mundo. Tinha um brilho pr\u00f3prio e um cora\u00e7\u00e3o enorme&#8221;, conta Daniel Bony, 37, diretor da escola de samba Unidos da Vila Maria, onde Kevin jogou futebol e participava de ensaios e eventos comunit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Foi na quadra da agremia\u00e7\u00e3o que o corpo de Kevin foi velado na ter\u00e7a passada (18) na presen\u00e7a da fam\u00edlia, amigos e centenas de f\u00e3s, que formaram longas filas para se despedir do funkeiro. Muitas coroas de flores e um tel\u00e3o com imagens do artista foram colocados na quadra.<br \/>Irrequieto, ia mal na escola, onde tentou se destacar fora da sala de aula criando um grupo de dan\u00e7a dedicado ao hip hop e se arriscando como skatista. A grande paix\u00e3o, no entanto, sempre foi o futebol. O sonho de ser jogador era, a um s\u00f3 tempo, lazer, passatempo e potencial passaporte para fora da pobreza.<\/p>\n<p>Santista roxo, Kevin era f\u00e3 incondicional de Neymar Jr., e reproduziu todos os cortes de cabelo do craque que fizeram a cabe\u00e7a de torcedores jovens como ele. (Em 19 de maio, ap\u00f3s a vit\u00f3ria do Paris Saint-Germain na Copa da Fran\u00e7a, Neymar levou uma camisa em homenagem ao funkeiro: &#8220;Descanse em paz, menino&#8221;)<br \/>&#8220;Kevin tentou de tudo para mudar a sua hist\u00f3ria&#8221;, lembra um amigo dos tempos da escola com quem dividia tamb\u00e9m o gosto pela bola e o bus\u00e3o rumo aos treinos em escolinhas do esporte da Barra Funda, na zona oeste de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tinha treino e aula no dia que meu irm\u00e3o foi preso e eu fui trabalhar no lugar dele, vender droga. O que a quebrada proporciona para o menino da favela \u00e9 isso&#8221;, avaliou Kevin em entrevista ao comentarista esportivo Al\u00ea Oliveira.<\/p>\n<p>Seria esse o epis\u00f3dio que, justamente, mudaria sua hist\u00f3ria, das manh\u00e3s de peladas na v\u00e1rzea da quebrada para as madrugadas de baile, bebida e baseados. &#8220;Foi a\u00ed que conheci o funk, os drinks, a balada. E vi que tinha talento pra rimar&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Descoberto o novo talento, ao mesmo tempo em que os amigos &#8220;ca\u00edam&#8221;, ou seja, eram presos ou assassinados, Kevin encontrou um caminho para fora do crime por meio da m\u00fasica. O primeiro funk que emplacou \u00e9 de um subg\u00eanero conhecido como putaria.<\/p>\n<p>Foi uma parceria com o MC Pedrinho em que causa estranheza o contraste do conte\u00fado expl\u00edcito das letras com as vozes de crian\u00e7as dos MCs adolescentes. Na grava\u00e7\u00e3o do primeiro clipe, Kevin precisou pegar emprestado um par de t\u00eanis para n\u00e3o aparecer apenas com os chinelos que tinha para cal\u00e7ar.<\/p>\n<p>O primeiro dinheiro ganho com o funk foi gasto no mercado e lotou a despensa da casa da fam\u00edlia. Diante de in\u00e9dita fartura, m\u00e3e e filho se abra\u00e7aram e choraram juntos diante dos arm\u00e1rios cheios da cozinha. Kevin passou a ser o respons\u00e1vel financeiro pela fam\u00edlia e tamb\u00e9m por amigos da quebrada t\u00e3o pobres quanto ele at\u00e9 t\u00e3o pouco tempo atr\u00e1s.<br \/>&#8220;Kevin passou fome e nunca teve nada. De repente, veio uma mudan\u00e7a enorme de vida. E, como acontece com outros meninos da comunidade que se tornam MC ou jogador de futebol, quando a gente passa a ter [dinheiro], quer comprar mesmo, quer mostrar mesmo&#8221;, conta Alexandre da Silva Santana, 38, o Gugu da GR6, que empresariou MC Kevin do primeiro hit at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s e a quem Kevin chamava de pai.<\/p>\n<p>Ainda aos 16 anos soube que seria pai de uma menina, Soraya, cujo nome depois tatuou no contorno da sobrancelha. A responsabilidade de criar uma mulher pesou nas suas escolhas musicais, e Kevin diz ter decidido abandonar os funks putaria por causa disso.<\/p>\n<p>&#8220;Agora eu vou cantar consciente&#8221;, relembrou ele em algumas entrevistas, tratando do estilo de funk que discute quest\u00f5es sociais do entorno dos funkeiros. A grana e a fama trouxeram conforto in\u00e9dito \u00e0 fam\u00edlia. Com cach\u00eas girando em torno de R$ 20 mil, as limita\u00e7\u00f5es financeiras de outros tempos desapareceram, e Kevin queria viver tudo para j\u00e1.<\/p>\n<p>Comprava sem pensar no dinheiro, e depois compartilhava roupas e t\u00eanis com os amigos. Virava tr\u00eas dias de festa em festa, regadas a u\u00edsque e energ\u00e9tico e com ampla oferta de sexo, inclusive pago, numa combina\u00e7\u00e3o que apelidou de &#8220;revoada&#8221; e de &#8220;boqueta&#8221;. Era um reflexo do imediatismo e do sexismo presentes no seu meio.<\/p>\n<p>Trata-se de um perfil replicado em escala industrial pelo funk. Meninos que n\u00e3o tinham nada e, em pouco tempo, passam a dirigir carros de meio milh\u00e3o de reais, com rel\u00f3gios e correntes de ouro e looks que somam dezenas de milhares de reais. Num contexto em que as pessoas valem o que t\u00eam, trata-se de um sinal de que tudo \u00e9 poss\u00edvel.<br \/>Destemido e um tanto inconsequente, Kevin colecionou alguns de seus B.O.s nesse per\u00edodo. Sofreu um acidente ao avan\u00e7ar um farol vermelho, e foi detido por estar embriagado. Tamb\u00e9m foi pego fumando maconha dentro de um carro com amigos.<\/p>\n<p>Em 2019, numa viagem a Minas Gerais para um festival, foi preso depois que h\u00f3spedes do hotel sentiram cheiro de maconha vindo de seu quarto. No cambur\u00e3o policial, fez um v\u00eddeo postado em redes sociais ironizando a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O moleque era como um filho mesmo. Bom cora\u00e7\u00e3o demais, ele \u00e0s vezes pensava que todo mundo era amigo dele. E nem todo mundo que est\u00e1 do nosso lado \u00e9 nosso amigo&#8221;, diz o ex-empres\u00e1rio Gugu, para quem era dif\u00edcil enquadrar Kevin.<\/p>\n<p>&#8220;Ele fazia tudo errado, e eu ficava bravo com ele. Mas, quando eu chegava perto dele para uma discuss\u00e3o, ele j\u00e1 me abra\u00e7ava e me dizia aquele: &#8216;T\u00e1 ligado, n\u00e9, pai!&#8217;. Entrava naquela zoeira e eu n\u00e3o conseguia mais brigar&#8221;, conta ele.<br \/>Magro desde sempre, nos \u00faltimos anos Kevin se dedicou a treinar o corpo e a ganhar m\u00fasculos e peso na mesma medida em que cresciam as tatuagens que j\u00e1 cobriam bra\u00e7os, barrica e t\u00f3rax, al\u00e9m de todo o topo da cabe\u00e7a (coberto por um rosto de Jesus Cristo, oculto pelos cabelos crescidos) e do pr\u00f3prio rosto.<\/p>\n<p>A casa que comprou em um condom\u00ednio de alto padr\u00e3o, decorada com fotos gigantes de Kevin nas paredes, vivia cheia de amigos, quase todos homens, entre churrascos e banhos de piscina, entre o samba, o pagode e, claro, o funk. No est\u00fadio que montou na nova morada, passou a escrever e a produzir m\u00fasicas como nunca, muitas delas ainda in\u00e9ditas.<\/p>\n<p>MC Kevin deixou um \u00e1lbum, &#8220;Passado e Presente&#8221;, disponibilizado no canal oficial do cantor no YouTube \u2013j\u00e1 tem mais de 1,1 milh\u00e3o de visualiza\u00e7\u00f5es\u2013, e investia na sua pr\u00f3pria gravadora, a Revolu\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s a sair da produtora de funk GR6. A chegada da pandemia foi um baque na vida dos funkeiros. Os contratos de shows minguaram, as aglomera\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, historicamente criminalizadas, ganharam ainda a pecha de problema sanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Barulhento e agregador, Kevin foi denunciado pelos novos vizinhos e autuado por infra\u00e7\u00e3o de medida sanit\u00e1ria. Para manter o contato com seu p\u00fablico, teve de se reinventar, intensificando a presen\u00e7a nas redes sociais, e ficou cada vez mais exposto, emplacando bord\u00f5es como &#8220;quem acordou, acordou&#8221; e &#8220;esquece, fio&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Kevin se tornou uma caricatura do cotidiano. Era o louco que todo mundo conhece. O figur\u00e3o da quebrada&#8221;, avalia Yuri Dinalli, 26, gerente de comunica\u00e7\u00e3o da GR6. &#8220;Puro, bobo, moleque, ele expressava gestuais e tons de voz que tinham um grau de proximidade com as pessoas. Parecia que voc\u00ea j\u00e1 o conhecia ele de algum lugar.&#8221;<\/p>\n<p>Espont\u00e2neo e sincero, sarrista e respond\u00e3o, Kevin virou atra\u00e7\u00e3o. No Instagram, o MC atingiu mais de 10 milh\u00f5es de seguidores. Seus stories eram acompanhados pela na\u00e7\u00e3o funkeira como novela di\u00e1ria, na qual desfilavam tretas com DJs e MCs e zoeiras em s\u00e9rie, al\u00e9m de barracos e declara\u00e7\u00f5es de amor \u00e0 namorada Deolane Bezerra, dez anos mais velha, com quem trocou alian\u00e7as de noivado (de R$ 25 mil cada uma) no M\u00e9xico poucas semanas antes de sua morte.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o de Kevin ao estrelato do funk o transformou no menino que encantou a quebrada e que deu esperan\u00e7a a tantos outros garotos pobres e sem perspectiva como ele. Sua morte, envolta em um contexto de sexo, drogas e trai\u00e7\u00e3o, interrompeu seus sonhos de maneira precoce e tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da heran\u00e7a material que fica para fam\u00edlia, a mesma que atravessou com ele o Brasil de um extremo a outro, fica a expectativa de qual ser\u00e1 a sua heran\u00e7a como artista. &#8220;Estamos sem ch\u00e3o&#8221;, resume o ex-empres\u00e1rio Gugu.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Fama<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1806858\/mc-kevin-o-menino-que-encantou-a-quebrada-viveu-extremos-do-brasil?utm_source=rss-fama&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00e3o breve quanto apote\u00f3tica, a trajet\u00f3ria de Kevin do Nascimento Bueno, 23, o MC Kevin,<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":13407,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-13406","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fama-e-tv"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13406","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13406"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13406\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13407"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13406"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13406"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13406"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}