{"id":13360,"date":"2021-05-23T14:10:23","date_gmt":"2021-05-23T17:10:23","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/05\/23\/morre-paulo-mendes-da-rocha-o-ultimo-gigante-da-arquitetura-brasileira\/"},"modified":"2021-05-23T14:10:23","modified_gmt":"2021-05-23T17:10:23","slug":"morre-paulo-mendes-da-rocha-o-ultimo-gigante-da-arquitetura-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/05\/23\/morre-paulo-mendes-da-rocha-o-ultimo-gigante-da-arquitetura-brasileira\/","title":{"rendered":"Morre Paulo Mendes da Rocha, o \u00faltimo gigante da arquitetura brasileira"},"content":{"rendered":"<p>Paulo Mendes da Rocha, que foi o mais brasileiro dos arquitetos internacionais, morreu na madrugada deste domingo (23), aos 92 anos. Ele estava internado em S\u00e3o Paulo, e a morte foi confirmada por seu filho, Pedro Mendes da Rocha.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Em atividade desde 1955, foi realmente descoberto pelo mundo quatro d\u00e9cadas mais tarde, quando as imagens da Pinacoteca do Estado e do MuBE (Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia) circularam em revistas estrangeiras.<br \/>Desde ent\u00e3o, o conjunto robusto que j\u00e1 constru\u00edra e as obras que viria a fazer passaram a atrair a aten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica. Sucederam-se os pr\u00eamios e reconhecimentos; estudos come\u00e7ariam a surgir na Europa nos anos 2000.<\/p>\n<p>At\u00e9 aquele momento, em 1995, quando j\u00e1 contava 67 anos, Paulo Mendes -assim, pela forma abreviada, se referem a ele os arquitetos- n\u00e3o tinha obras constru\u00eddas no exterior.<\/p>\n<p>Tivera, \u00e9 verdade, o pavilh\u00e3o brasileiro na Exposi\u00e7\u00e3o Universal de Osaka em 1970. Mas, demolido ao fim do evento, o edif\u00edcio ficou na mem\u00f3ria dos estudiosos somente.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter geograficamente restrito de sua obra n\u00e3o impediu que ele recebesse todos os principais pr\u00eamios arquitet\u00f4nicos do mundo.<br \/>Em dois anos seguidos, recebeu o Mies van der Rohe de arquitetura latino-americana. O pr\u00eamio, dado pela funda\u00e7\u00e3o catal\u00e3 que leva o nome do papa alem\u00e3o arquiteto do racionalismo arquitet\u00f4nico, reconheceu, em 1999, o projeto do MuBE e, em 2000, o da Pinacoteca de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Em 2006, tornou-se o segundo arquiteto brasileiro -depois de Oscar Niemeyer, em 1988- a vencer o Pritzker, apelidado &#8220;Nobel da arquitetura&#8221;, embora nada tenha a ver com a Academia Sueca -\u00e9 dado pela Funda\u00e7\u00e3o Hyatt, americana.<br \/>Apenas em 2015 sairia do papel seu \u00fanico projeto no exterior, a sede nova do Museu Nacional dos Coches, em Lisboa.<\/p>\n<p>No ano seguinte, receberia o Le\u00e3o de Ouro de Veneza e o Pr\u00eamio Imperial do Jap\u00e3o. Em 2017, seria a vez da medalha de ouro do Riba (Royal Institute of British Architects).<\/p>\n<p>Com a maior parte de sua obra concentrada em S\u00e3o Paulo, quase se poderia dizer que era o mais paulistano dos arquitetos brasileiros de alcance internacional. Mas era capixaba, nascido Paulo Archias Mendes da Rocha em Vit\u00f3ria, a 25 de outubro de 1928.<br \/>Seu pai, Paulo de Menezes Mendes da Rocha, era engenheiro e, junto do empreiteiro Serafim Derenzi, pai de sua mulher, Angelina Derenzi, desenvolveu um loteamento na Praia Comprida, na capital do Esp\u00edrito Santo.<br \/>Premida pela crise financeira mundial de 1929, a fam\u00edlia -pai, m\u00e3e, Paulo e irm\u00e3 mais nova- mudou-se para o Rio. Da casa do av\u00f4 paterno, Francisco, em Paquet\u00e1 o arquiteto contava lembran\u00e7as de pescaria.<br \/>Mais tarde, quando contava por volta de seis anos, foi com a m\u00e3e e a irm\u00e3 encontrar com o pai, que fora tentar a sorte em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia viveu por anos numa pens\u00e3o na avenida Paulista, que o menino percorria a p\u00e9, de um lado a outro, para estudar no col\u00e9gio S\u00e3o Lu\u00eds, observando suas constru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Casas muito interessantes. Eu vi desaparecer uma por uma&#8221;, relembrou em depoimento registrado por Lu\u00eds Ludmer em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado na FAU-USP, em 2019. &#8220;Eu vi se fazer inteira a avenida Paulista, como se surgisse assim, na minha frente, de um momento para o outro.&#8221;<br \/>Aos 16, tentou, sem sucesso, ingressar na Escola Naval, voltando para isso a morar com o av\u00f4 no Rio por dois anos. Na hora de escolher a profiss\u00e3o, decidiu que queria ser arquiteto, mas para a &#8220;escola do pai&#8221; n\u00e3o iria.<\/p>\n<p>Paulo de Menezes Mendes da Rocha tinha constru\u00eddo uma carreira em S\u00e3o Paulo e era, \u00e0 \u00e9poca, diretor da Escola Polit\u00e9cnica da USP, onde se podia optar pelo diploma de engenheiro arquiteto.<\/p>\n<p>Preferiu sair da sombra do pai e estudar no Mackenzie, que tinha curso de arquitetura. Destacava, na forma\u00e7\u00e3o que recebeu no curso -de resto, bastante cl\u00e1ssico-, as aulas com Roberto Zuccolo.<\/p>\n<p>Zuccolo, um dos introdutores das estruturas protendidas no pa\u00eds, teria muita influ\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 na forma\u00e7\u00e3o de Paulo Mendes como na de outros nomes da escola paulista de arquitetura que estudaram no Mackenzie, como Fabio Penteado e Pedro Paulo de Melo Saraiva.<br \/>O apre\u00e7o pela clareza estrutural, e mais que isso, pela arquitetura que \u00e9 estrutura se manifestaria de forma evidente desde sua primeira obra constru\u00edda, o Gin\u00e1sio do Clube Athletico Paulistano.<br \/>A estrutura \u00e9 uma forma circular na qual seis pilares sustentam por tirantes a cobertura de madeira e telhas met\u00e1licas; as laterais abertas d\u00e3o para uma esplanada.<\/p>\n<p>Quando ganhou o concurso, em 1958, Paulo Mendes era formado fazia quatro anos e dividia um escrit\u00f3rio com sete colegas no centro da cidade, realizando pequenos trabalhos.<\/p>\n<p>&#8220;Nesse concurso compareceram muitos dos mais not\u00e1veis arquitetos de S\u00e3o Paulo. E assim, de fato, apareci no cen\u00e1rio profissional. Fiquei conhecido como &#8216;um arquiteto'&#8221;, escreveu em depoimento \u00e0 Folha em 2018.<br \/>O projeto do gin\u00e1sio, que seria premiado na 6a Bienal de Artes de S\u00e3o Paulo, em 1961, foi feito em parceria com Jo\u00e3o De Gennaro. Paulo Mendes trabalharia sempre com outros colegas -n\u00e3o raro associando-se a disc\u00edpulos de diferentes gera\u00e7\u00f5es, caso dos escrit\u00f3rios MMBB e Metro.<\/p>\n<p>Depois disso, seria convidado por Jo\u00e3o Batista Vilanova Artigas a dar aulas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em 1961. Artigas -que participou do concurso para o gin\u00e1sio- \u00e9 nome fundador da chamada escola paulista, que teria em Paulo Mendes seu expoente mais not\u00e1vel.<\/p>\n<p>O brilho desse in\u00edcio se veria obscurecido na ditadura. Paulo Mendes continuava a trabalhar com De Gennaro e a dupla teve realiza\u00e7\u00f5es importantes, como o Jockey Club de Goi\u00e2nia, e participou de muitos concursos para obras p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Em 1969, Paulo Mendes foi cassado, junto com Artigas e outros 64 professores da USP, pelo governo militar. N\u00e3o p\u00f4de mais dar aulas -que retomaria em 1980, com a anistia, indo at\u00e9 1998, quando se aposentou compulsoriamente aos 70- ou trabalhar para o Estado.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, acabara de vencer o concurso para o pavilh\u00e3o brasileiro na Expo&#8217;70, em Osaka. Tornava-se, assim, porta-voz de um governo que n\u00e3o o queria.<\/p>\n<p>O edif\u00edcio, de apar\u00eancia simples e estrutura complexa, consistia de uma grande cobertura em domos -evocando a da FAU no campus da USP, que acabava de ser constru\u00edda com projeto de Artigas-, apoiada sobre colinas constru\u00eddas com movimenta\u00e7\u00f5es no terreno.<\/p>\n<p>A demoli\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a feira era o destino previsto para quase todos os pavilh\u00f5es. Em entrevista \u00e0 Folha Paulo Mendes contou, por\u00e9m, ter recebido a proposta de uma universidade para que pr\u00e9dio fosse preservado e usado pela escola de m\u00fasica da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, contou, o governo brasileiro se op\u00f4s, e o pavilh\u00e3o sucumbiu. &#8220;Foi a grande cassa\u00e7\u00e3o que sofri&#8221;, disse ent\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 pelas restri\u00e7\u00f5es impostas pelo regime militar, uma grande parte da produ\u00e7\u00e3o do arquiteto foi de resid\u00eancias unifamiliares, em bairros da zona sul e oeste onde havia terrenos generosos, como Butant\u00e3 e Jardim Guedala. Entre os anos 1960 e 1980, foram cerca de 30 projetos do g\u00eanero, 23 constru\u00eddos, como as casas Masetti (1967) e Gerassi (1989).<\/p>\n<p>Em 1964, fez de sua pr\u00f3pria resid\u00eancia uma esp\u00e9cie de experimento. A Casa Butant\u00e3, como \u00e9 conhecida, abrigou entre os anos 1970 e 1990 sua fam\u00edlia -era j\u00e1 pai de quatro dos cinco filhos que teria com sua primeira mulher, Virg\u00ednia Ferraz Navarro.<\/p>\n<p>&#8220;Esta casa pode ser compreendida assim: uma constru\u00e7\u00e3o engenhosa que foi feita para ser ocupada como uma casa&#8221;, disse em depoimento a Catherine Otondo para o livro &#8220;Casa Butant\u00e3&#8221; (Ubu, 2016).<br \/>Apesar de ter projetado tantas casas, defendia os edif\u00edcios de apartamentos, que propiciam o necess\u00e1rio adensamento, facilitando o transporte p\u00fablico numa cidade que, dizia n\u00e3o era bem-feita. Lamentava que S\u00e3o Paulo tivesse se verticalizado lote a lote, sem planejamento. Via no Copan, de Niemeyer, e no Conjunto Nacional, de David Libeskind, exemplos de urbanidade.<\/p>\n<p>\u00c9 autor tamb\u00e9m ele de projetos primorosos de edif\u00edcios, como o Guaimb\u00ea (1962), nos Jardins, e o Jaragu\u00e1 (1984), na Pompeia. Assina ainda, com Vilanova Artigas e Fabio Penteado, o Conjunto Habitacional Zezinho de Magalh\u00e3es, em Guarulhos, de 1968.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, sua obra passa a incorporar novamente projetos de grande porte, muitos deles para o setor cultural.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do j\u00e1 citado MuBE, destacam-se entre estes a Pinacoteca do Estado, que concebeu em 1992 com Eduardo Colonelli, readequando um edif\u00edcio de 1900 de Ramos de Azevedo, e o projeto original do Museu da L\u00edngua Portuguesa, de 2006, instalado na Esta\u00e7\u00e3o da Luz e desenvolvido com seu filho Pedro.<\/p>\n<p>Em 2017, inaugurou-se em S\u00e3o Paulo o Sesc 24 de Maio. Projetado com o MMBB, insere-se na vida dos cal\u00e7ad\u00f5es do centro, com 13 andares interligados por rampas e uma piscina com vista na cobertura.<br \/>Duas grandes obras suas ficaram sem terminar -a Pra\u00e7a dos Museus da USP; que n\u00e3o teve fim por problemas or\u00e7ament\u00e1rios, e o Cais das Artes, complexo art\u00edstico e museol\u00f3gico em Vit\u00f3ria, paralisado por longos anos devido a imbr\u00f3glios judiciais.<br \/>Entre a longa lista de projetos que n\u00e3o sa\u00edram do papel, realidade comum a muitos arquitetos, est\u00e1 a pra\u00e7a que reconfiguraria o principal acesso do parque Ibirapuera, projeto que foi engavetado na prefeitura Jo\u00e3o Doria (PSDB) por falta de recursos.<\/p>\n<p>A ideia era criar uma entrada mais generosa para pedestres, retirando vagas de autom\u00f3veis e aumentando as superf\u00edcies perme\u00e1veis. &#8220;A p\u00e9 a aproxima\u00e7\u00e3o do parque \u00e9 mais agrad\u00e1vel&#8221;, disse \u00e0 Folha, comentando o projeto, em 2016.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio cultivava o h\u00e1bito de caminhar at\u00e9 bem entrado nos 80 anos.<\/p>\n<p>Era comum, ainda na d\u00e9cada de 2000, v\u00ea-lo passeando ao lado de sua segunda mulher, a arquiteta e designer de joias Helene Afanasieff, pelo bairro de Higien\u00f3polis.<\/p>\n<p>Mudara-se para o bairro da regi\u00e3o central na d\u00e9cada anterior, ficando mais pr\u00f3ximo do escrit\u00f3rio que ocupou desde 1973, no quinto andar do edif\u00edcio do IAB, na Vila Buarque.<br \/>Deixa a mulher, Helene, e os filhos Renata, Guilherme, Paulo, Pedro, Joana e Nan\u00e1.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1806790\/morre-paulo-mendes-da-rocha-o-ultimo-gigante-da-arquitetura-brasileira?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Mendes da Rocha, que foi o mais brasileiro dos arquitetos internacionais, morreu na madrugada<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":13361,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-13360","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13360","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13360"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13360\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13361"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}