{"id":127758,"date":"2023-06-02T22:08:22","date_gmt":"2023-06-03T01:08:22","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/06\/02\/brasileiros-sao-censurados-em-portugal-por-obra-que-denuncia-escravidao\/"},"modified":"2023-06-02T22:08:22","modified_gmt":"2023-06-03T01:08:22","slug":"brasileiros-sao-censurados-em-portugal-por-obra-que-denuncia-escravidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/06\/02\/brasileiros-sao-censurados-em-portugal-por-obra-que-denuncia-escravidao\/","title":{"rendered":"Brasileiros s\u00e3o censurados em Portugal por obra que denuncia escravid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) &#8211; Os artistas brasileiros Dori Nigro e Paulo Pinto tiveram uma obra censurada em uma exposi\u00e7\u00e3o que integra a Bienal de Fotografia do Porto. A instala\u00e7\u00e3o &#8220;Ado\u00e7ar a Alma para o Inferno 3&#8221; tinha alus\u00f5es \u00e0 liga\u00e7\u00e3o do conde de Ferreira, um famoso benem\u00e9rito portugu\u00eas, ao tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico de pessoas escravizadas.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>A mostra liderada pela dupla estava instalada justamente em um hospital batizado em homenagem ao conde, que morreu sem descendentes diretos e destinou a fortuna obtida com o com\u00e9rcio, tanto de mercadorias quanto de seres humanos, a diversos projetos sociais e educacionais.<\/p>\n<p>A obra que foi alvo de censura explorava a contradi\u00e7\u00e3o entre a filantropia como subproduto da explora\u00e7\u00e3o. Ainda que n\u00e3o citasse nominalmente Ferreira, uma das \u00e1reas da instala\u00e7\u00e3o continha espelhos com reflex\u00f5es sobre a vida do comerciante.<\/p>\n<p>&#8220;Quantas pessoas escravizadas valem um hospital psiqui\u00e1trico? Quantas pessoas escravizadas valem 120 escolas? Quantas pessoas escravizadas valem os t\u00edtulos de nobre e benfeitor?&#8221;, questionam os artistas em um dos objetos da instala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o de censura aconteceu em 19 de maio, dia da inaugura\u00e7\u00e3o da obra. O administrador executivo do Centro Hospitalar do Conde de Ferreira, acompanhado pelo diretor cl\u00ednico da institui\u00e7\u00e3o, foi at\u00e9 ao local e exigiu a retirada das pe\u00e7as com men\u00e7\u00f5es ao passado escravagista.<\/p>\n<p>Diante da recusa por parte dos artistas, os respons\u00e1veis determinaram que a parte da exposi\u00e7\u00e3o que continha as refer\u00eancias fosse fechada. Ainda com os convidados presentes, um funcion\u00e1rio lacrou a porta de acesso com peda\u00e7os de madeira.<\/p>\n<p>Dias depois, o hospital removeu por conta pr\u00f3pria, e sem a autoriza\u00e7\u00e3o dos autores, as partes pol\u00eamicas da obra. &#8220;Foi uma viola\u00e7\u00e3o em cima de uma viola\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Pinto.<\/p>\n<p>Os artistas se dizem surpresos e perplexos com a censura. &#8220;N\u00e3o teve negocia\u00e7\u00e3o. Era para tirarmos as obras ou encerrariam a sala. Tudo aconteceu com o p\u00fablico circulando&#8221;, afirma Pinto. &#8220;N\u00f3s ficamos em choque porque n\u00e3o imaginamos o que viria em seguida. Est\u00e1vamos falando com o p\u00fablico quando, de repente, passa um senhor com uma furadeira para colocar uma tarja de madeira e parafusos para tapar a porta.&#8221;<\/p>\n<p>Radicado em Portugal desde 2013, o casal tem um hist\u00f3rico de trabalhos que abordam o passado colonial e as mem\u00f3rias de seus antepassados. Eles afirmam ainda que deixaram claro que iriam refletir sobre o tema e afirmam que os respons\u00e1veis pelo hospital puderam acompanhar o processo de montagem.<\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o estava inserida na exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Vento (A)mar&#8221;, cuja pr\u00f3pria sinopse j\u00e1 menciona as reflex\u00f5es sobre colonialismo e ancestralidade. Nigro diz que a dupla j\u00e1 esperava provocar algum tipo de inc\u00f4modo com a exposi\u00e7\u00e3o, mas imaginava que haveria um debate construtivo.<\/p>\n<p>&#8220;Esper\u00e1vamos, sim, uma rea\u00e7\u00e3o, mas como a que acontece em muitas das nossas performances. As pessoas discutem, debatem. Ou seja, a arte provoca um di\u00e1logo que \u00e9 interessante. Esper\u00e1vamos que esse di\u00e1logo transformador tamb\u00e9m fosse poss\u00edvel. \u00c9 isso que n\u00f3s queremos sempre: olhar para o nosso passado para n\u00e3o repeti-lo&#8221;, ele afirma. &#8220;O que a gente n\u00e3o esperava era essa dupla viol\u00eancia \u00e0 luz do dia. Uma censura em pleno s\u00e9culo 21.&#8221;<\/p>\n<p>Ainda no \u00e2mbito da bienal, Nigro e Pinto protagonizar\u00e3o a performance &#8220;Pin Dor Ama: Primeira Li\u00e7\u00e3o&#8221;, que aborda quest\u00f5es como o colonialismo, o racismo e a homofobia. A apresenta\u00e7\u00e3o, marcada para 22 de junho, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, ter\u00e1 ainda debates e reflex\u00f5es sobre o tema e os \u00faltimos epis\u00f3dios.<\/p>\n<p>Em nota, a Bienal de Fotografia do Porto condenou duramente a posi\u00e7\u00e3o dos representantes do hospital e da Miseric\u00f3rdia do Porto. &#8220;Este ato de censura \u00e0 liberdade de express\u00e3o fere um direito constitucional inalien\u00e1vel e atinge n\u00e3o s\u00f3 o conjunto da obra art\u00edstica &#8216;Ado\u00e7ar a Alma para o Inferno 3&#8217;, como toda a equipe da exposi\u00e7\u00e3o e da Bienal, toda a classe art\u00edstica e todos que defendem a democracia&#8221;.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o pediu ainda a reabertura do espa\u00e7o e a exposi\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico, na \u00edntegra, da obra da dupla brasileira. A Santa Casa de Miseric\u00f3rdia do Porto, que tutela o hospital Conde de Ferreira, afirmou em nota que &#8220;lamenta n\u00e3o poder atender&#8221; a solicita\u00e7\u00e3o de reabertura e afirma que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas para a concretiza\u00e7\u00e3o do pedido&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A comunidade de sa\u00fade, doentes, trabalhadores e suas fam\u00edlias se sentem afetados pela express\u00e3o utilizada quando se referem a &#8216;quantas pessoas escravizadas valem um hospital psiqui\u00e1trico?&#8217;<\/p>\n<p>Dizendo-se uma institui\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito inovador e tolerante, a Miseric\u00f3rdia do Porto afirmou ainda que &#8220;n\u00e3o ter\u00e1 dificuldade, na forma adequada, de discutir a sua hist\u00f3ria, os seus comportamentos, os seus benfeitores&#8221;.<\/p>\n<p>Questionado pela reportagem, o minist\u00e9rio da Cultura de Portugal, que apoia financeiramente a bienal, limitou-se a afirmar que &#8220;n\u00e3o interfere de forma alguma nas escolhas dos locais e dos conte\u00fados art\u00edsticos e repudia veemente qualquer ato de censura contra obras de natureza art\u00edstica&#8221;.<\/p>\n<p>Nascido em 1782, no Porto, Joaquim Ferreira dos Santos fez fortuna principalmente como comerciante. Vindo de uma fam\u00edlia humilde, conquistou t\u00edtulos nobili\u00e1rios com gra\u00e7as a generosas doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Entre suas atividades estava o tr\u00e1fico de pessoas escravizadas na rota entre Angola e o Brasil. Historiadores estimam que pelo menos 10 mil pessoas tenham sido vendidas por Ferreira, sozinho ou em sociedade.<\/p>\n<p>Ele emigrou para o Brasil em 1800 e, ap\u00f3s a Independ\u00eancia, adquiriu a nacionalidade brasileira. Depois uma vida integrada e proeminente na corte da antiga col\u00f4nia, decidiu regressar a Portugal. Reintegrado na sociedade e novamente com a nacionalidade lusa, morre em 1866, aos 83 anos, deixando uma grande fortuna para projetos de caridade.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Mundo<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/2027148\/brasileiros-sao-censurados-em-portugal-por-obra-que-denuncia-escravidao?utm_source=rss-mundo&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) &#8211; Os artistas brasileiros Dori Nigro e Paulo Pinto tiveram uma obra<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":127759,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-127758","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=127758"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127758\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/127759"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=127758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=127758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=127758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}