{"id":125564,"date":"2023-05-20T11:08:32","date_gmt":"2023-05-20T14:08:32","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/05\/20\/40-anos-apos-descoberta-do-hiv-medicos-relembram-isolamento-suicidios-e-estigma\/"},"modified":"2023-05-20T11:08:32","modified_gmt":"2023-05-20T14:08:32","slug":"40-anos-apos-descoberta-do-hiv-medicos-relembram-isolamento-suicidios-e-estigma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/05\/20\/40-anos-apos-descoberta-do-hiv-medicos-relembram-isolamento-suicidios-e-estigma\/","title":{"rendered":"40 anos ap\u00f3s descoberta do HIV, m\u00e9dicos relembram isolamento, suic\u00eddios e estigma"},"content":{"rendered":"<p>STEFHANIE PIOVEZAN<br \/>S\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; H\u00e1 40 anos, a revista Science publicava a descoberta de um v\u00edrus. Tratava-se de um agente infeccioso encontrado nos g\u00e2nglios linf\u00e1ticos de um paciente atendido no hospital Piti\u00e9-Salp\u00eatri\u00e8re, em Paris, com sinais e sintomas frequentemente associados \u00e0 Aids.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>O artigo era encabe\u00e7ado pelos pesquisadores franceses Luc Montagnier e Fran\u00e7oise Barr\u00e9-Sinoussi, premiados mais tarde com o Nobel de Medicina pela revela\u00e7\u00e3o, e assinado por mais dez cientistas.<br \/>No texto, o grupo afirmava que o novo v\u00edrus, batizado em 1986 de HIV (v\u00edrus da imunodefici\u00eancia humana), poderia estar envolvido no desenvolvimento da s\u00edndrome, na \u00e9poca um grande mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>&#8220;A imprensa chamava de c\u00e2ncer-gay&#8221;, lembra a infectologista Zarifa Khouri. Em 1983, ela era residente no Hospital Em\u00edlio Ribas, em S\u00e3o Paulo, e atendeu alguns dos primeiros pacientes com Aids no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;O primeiro caso que atendi foi de um rapaz que era cabeleireiro e tinha frequentado saunas gays nos Estados Unidos. Ele deu entrada com diarreia e os professores diagnosticaram febre tifoide, mas n\u00e3o batia porque em adultos a febre tifoide provoca intestino preso&#8221;, recorda.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabia o que o homem tinha. Passados alguns dias, surgiram manchas roxas em seu calcanhar e na testa, e a equipe lembrou que as reportagens sobre a tal doen\u00e7a relatavam que os pacientes com frequ\u00eancia desenvolviam um tipo de c\u00e2ncer chamado sarcoma de Kaposi.<\/p>\n<p>Leia Tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1987549\/lideres-fazem-pacto-para-acabar-com-aids-em-criancas-ate-2030\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">L\u00edderes fazem pacto para acabar com Aids em crian\u00e7as at\u00e9 2030<\/a><\/p>\n<p>A equipe se questionava: seria Aids? Mas ainda n\u00e3o havia um teste para confirmar e nem antirretrovirais para impedir a multiplica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus no organismo. Assim, o caso continuou se agravando. Surgiu uma pneumonia e o homem morreu na UTI, com quadro de insufici\u00eancia respirat\u00f3ria.<br \/>&#8220;O que consegu\u00edamos era tratar as infec\u00e7\u00f5es oportunistas e esses pacientes iam falecendo. Era uma senten\u00e7a de morte. Quando eles descobriam que eram soropositivos, largavam a faculdade, largavam tudo&#8221;, afirma Khouri.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m entendia como a doen\u00e7a era transmitida, e os pr\u00f3prios m\u00e9dicos tinham medo de colocar as m\u00e3os nos pacientes. O contato com as visitas era feito por uma abertura na parede e a pergunta &#8220;Quanto tempo eu tenho de vida?&#8221; era frequente.<br \/>&#8220;\u00c0s vezes, sa\u00edamos para tomar um caf\u00e9 do outro lado da rua e nos depar\u00e1vamos com pacientes se jogando pela janela, cometendo suic\u00eddio&#8221;, conta a m\u00e9dica.<\/p>\n<p>No caso das mulheres diagnosticadas com o v\u00edrus, a recomenda\u00e7\u00e3o era a laqueadura, j\u00e1 que n\u00e3o havia controle da transmiss\u00e3o entre m\u00e3e e beb\u00ea.<\/p>\n<p>&#8220;Um dia, eu estava no pronto-socorro e um casalzinho jovem, de 14, 15 anos, veio conversar. Eles eram usu\u00e1rios de drogas injet\u00e1veis, muito comuns naquela \u00e9poca, e pediram para n\u00e3o contar para ningu\u00e9m que eles tinham HIV porque sen\u00e3o os dois seriam linchados na favela em que moravam. A discrimina\u00e7\u00e3o era muito, muito grande&#8221;, lembra a m\u00e9dica entre l\u00e1grimas.<\/p>\n<p><span class=\"news_bold\">COQUETEL E DESAFIOS<\/span><br \/>O cen\u00e1rio come\u00e7ou a mudar em 1991, quando o mundo tinha 10 milh\u00f5es de pessoas infectadas, de acordo com a OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade), e o Brasil somava 11.805 casos.<br \/>Foi nesse ano que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade deu in\u00edcio \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o gratuita de antirretrovirais. No ano seguinte, a combina\u00e7\u00e3o de AZT e Videx inaugurou o primeiro coquetel anti-Aids do pa\u00eds e, da\u00ed para frente, a inclus\u00e3o de novos medicamentos aumentou a expectativa e a qualidade de vida dos pacientes.<\/p>\n<p>&#8220;Com o coquetel, a pessoa j\u00e1 n\u00e3o tinha mais um tempo de vida definido&#8221;, compara Khouri. Ainda assim, os primeiros rem\u00e9dios provocavam diarreia e a perda de gordura no rosto evidenciava quem tinha a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Outras mudan\u00e7as foram o controle da transmiss\u00e3o entre m\u00e3e e beb\u00ea e, mais recentemente, o uso profil\u00e1tico dos antirretrovirais antes e ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus. &#8220;Nosso maior desafio hoje \u00e9 acertar na preven\u00e7\u00e3o para diminuir o n\u00famero de infec\u00e7\u00f5es&#8221;, avalia a m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Valdez Madruga, coordenador do comit\u00ea cient\u00edfico de HIV\/Aids da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), cita outro obst\u00e1culo: a perman\u00eancia do estigma. &#8220;Vemos fam\u00edlias que expulsam filhos de casa e empresas que demitem funcion\u00e1rios por causa do HIV.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O mundo mudou muito nesses 40 anos, mas ainda vemos pessoas com diagn\u00f3stico tardio e doen\u00e7a grave pelo simples medo de fazer o teste de HIV&#8221;, relata. &#8220;Isso leva ao aumento de mortalidade e tamb\u00e9m a sequelas de doen\u00e7as decorrentes da imunodepress\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>De acordo com o Unaids (Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas em HIV\/Aids), em 2021, 38,4 milh\u00f5es de pessoas no mundo viviam com HIV. Naquele ano, o \u00faltimo com dados dispon\u00edveis, foram 650 mil mortes.<\/p>\n<p>Desde o surgimento dos primeiros casos, 84,2 milh\u00f5es de pessoas no mundo foram infectadas pelo HIV e 40,1 milh\u00f5es morreram por doen\u00e7as relacionadas \u00e0 Aids.<br \/>Em todo esse per\u00edodo, houve apenas cinco relatos de cura, todos envolvendo o transplante de c\u00e9lulas-tronco de doadores com uma muta\u00e7\u00e3o no gene CCR5 que impede a entrada do HIV nas c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>&#8220;Nesta d\u00e9cada, esperamos que os medicamentos continuem melhorando, com aumento no intervalo entre as doses e menos efeitos adversos, e principalmente sonhamos com a cura&#8221;, confessa Madruga.<\/p>\n<p>&#8220;Espero presenciar esse momento, ver a cura ser anunciada&#8221;, diz Khouri.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/2022260\/40-anos-apos-descoberta-do-hiv-medicos-relembram-isolamento-suicidios-e-estigma?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>STEFHANIE PIOVEZANS\u00c3O PAULO, SP (FOLHAPRESS) &#8211; H\u00e1 40 anos, a revista Science publicava a descoberta<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":0,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-125564","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/125564","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=125564"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/125564\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=125564"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=125564"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=125564"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}