{"id":12014,"date":"2021-05-16T19:09:04","date_gmt":"2021-05-16T22:09:04","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/05\/16\/jovens-portugueses-quebram-tabu-e-debatem-passado-escravocrata-de-suas-familias\/"},"modified":"2021-05-16T19:09:04","modified_gmt":"2021-05-16T22:09:04","slug":"jovens-portugueses-quebram-tabu-e-debatem-passado-escravocrata-de-suas-familias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2021\/05\/16\/jovens-portugueses-quebram-tabu-e-debatem-passado-escravocrata-de-suas-familias\/","title":{"rendered":"Jovens portugueses quebram tabu e debatem passado escravocrata de suas fam\u00edlias"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Os meus antepassados n\u00e3o s\u00f3 foram traficantes de escravos, como foram um dos maiores traficantes de escravos de Angola. O bras\u00e3o da minha fam\u00edlia ainda est\u00e1 no museu da escravid\u00e3o em Luanda&#8221;, admite, sem eufemismos, a jornalista portuguesa Catarina Demony, 28.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Embora Portugal e muitas fam\u00edlias portuguesas tenham tido um papel relevante no com\u00e9rcio e explora\u00e7\u00e3o de africanos, relatos diretos como o dela ainda s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, e a admiss\u00e3o de experi\u00eancias familiares com a escravatura permanece um tabu.<\/p>\n<p>Recentemente, por\u00e9m, jovens portugueses t\u00eam usado diferentes estrat\u00e9gias para quebrar o sil\u00eancio. Entre newsletters, confer\u00eancias, lives nas redes sociais e um document\u00e1rio, eles debatem um passado muitas vezes inc\u00f4modo para seus familiares.<br \/>&#8220;O que me parece \u00e9 que a escravatura foi uma das ra\u00edzes dos problemas de racismo que n\u00f3s temos hoje na sociedade portuguesa. Se n\u00f3s n\u00e3o falarmos de uma forma direta e n\u00e3o formos \u00e0 raiz do problema, as coisas n\u00e3o v\u00e3o mudar&#8221;, diz Catarina, que partiu das experi\u00eancias da fam\u00edlia para fazer um document\u00e1rio.<\/p>\n<p>Segundo ela, a descoberta de que seus antepassados maternos tiveram um papel importante no com\u00e9rcio de pessoas escravizadas surgiu em conversas com a av\u00f3, h\u00e1 cerca de quatro anos.<\/p>\n<p>&#8220;Eu sempre soube que eles [fam\u00edlia materna] tinham uma vida abastada em Angola, que viviam bem, tinham empregados, motoristas, cozinheiros. E uma das perguntas que eu sempre fiz era:<br \/>de onde veio esse dinheiro?&#8221;<br \/>A ideia de transformar a experi\u00eancia familiar em document\u00e1rio, segundo a jornalista, tem como um dos objetivos ajudar a fomentar a discuss\u00e3o em outras fam\u00edlias e promover o debate tamb\u00e9m entre jovens e estudantes.<br \/>&#8220;Uma das raz\u00f5es pelas quais as fam\u00edlias n\u00e3o falam sobre este assunto \u00e9 porque as pessoas t\u00eam vergonha. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o estou fazendo o document\u00e1rio numa perspectiva de vergonha, mas sim de aprendizagem, de abrir uma conversa para falarmos sobre o assunto&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Batizado de &#8220;The Old Us&#8221;, o filme tem lan\u00e7amento previsto para dezembro. Al\u00e9m de relatos de ativistas e historiadores, re\u00fane depoimentos de outros jovens que se defrontam com hist\u00f3rias familiares relacionadas \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>A respons\u00e1vel pelo document\u00e1rio diz ter encontrado um ponto em comum entre os entrevistados: &#8220;Todas as pessoas com quem conversei sempre tiveram boas condi\u00e7\u00f5es financeiras e acesso a boas universidades. Muitas estudaram no exterior&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas vivem em uma almofada de privil\u00e9gios devido \u00e0 escravatura. N\u00e3o diretamente, porque o dinheiro que est\u00e1 agora n\u00e3o veio da escravatura. Mas vivem indiretamente, porque o dinheiro foi dando oportunidades de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o, at\u00e9 chegar aos dias de hoje&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>Foi justamente uma reflex\u00e3o sobre os pr\u00f3prios privil\u00e9gios que fez Nuno Viegas, 22, querer investigar o passado familiar. &#8220;Eu nasci nos A\u00e7ores, e 87% dos a\u00e7orianos nunca puseram os p\u00e9s em uma universidade.<br \/>\u00c9 a regi\u00e3o do pa\u00eds com a pior taxa de acesso ao ensino superior, mas todos os meus familiares t\u00eam diplomas. Cresci rodeado de m\u00e9dicos e enfermeiros&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Ao levantar o assunto da escravid\u00e3o entre seus familiares, ele diz que sempre ouviu respostas negativas. Pouco convencido, resolveu investigar por conta pr\u00f3pria. &#8220;Eu desconfiei e fui pesquisar. Pensei que talvez tivesse de ir procurar na Torre do Tombo, onde se guardam os arquivos hist\u00f3ricos em Portugal, mas n\u00e3o, est\u00e1 tudo online. Foi incrivelmente f\u00e1cil&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Em registros p\u00fablicos, o jovem identificou a participa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia no com\u00e9rcio de pessoas escravizadas. Al\u00e9m de documentos referentes ao arquip\u00e9lago dos A\u00e7ores, ele tamb\u00e9m comprovou que os antepassados exploravam escravos no Brasil, principalmente no estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O resultado da investiga\u00e7\u00e3o foi compartilhado com os parentes n\u00e3o em um almo\u00e7o de fam\u00edlia, mas em uma newsletter p\u00fablica com um t\u00edtulo provocativo: &#8220;Ainda vivo \u00e0s custas dos escravizados pela minha fam\u00edlia&#8221;.<br \/>O texto de opini\u00e3o foi publicado no portal Fuma\u00e7a, refer\u00eancia em m\u00eddia independente em Portugal. O sucesso com os leitores, por\u00e9m, n\u00e3o evitou o clim\u00e3o com a fam\u00edlia. &#8220;Devo dizer que n\u00e3o apreciaram&#8221;, diverte-se ele, que refor\u00e7a considerar fundamental falar sobre o tema.<br \/>Viegas, que se diz de direita, lamenta que o combate ao racismo e a discuss\u00e3o sobre o passado escravocrata do pa\u00eds estejam concentrados nos partidos de esquerda.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m defensora de um di\u00e1logo aberto sobre o passado escravocrata dos familiares, a professora Ana Esteves, 30, lamenta n\u00e3o ter conversado com os av\u00f3s, que j\u00e1 morreram, sobre o assunto.<\/p>\n<p>&#8220;Descobri que minha fam\u00edlia teve muitos escravos um pouco por acaso. Na aldeia da minha fam\u00edlia h\u00e1 uma rua com o nome do meu trisav\u00f4. Nunca liguei muito para isso, mas um dia tive curiosidade de pesquisar mais sobre ele e o per\u00edodo em que viveu na \u00c1frica. N\u00e3o foi um choque, mas tamb\u00e9m n\u00e3o foi f\u00e1cil&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Embora diga que n\u00e3o tenha abertura para falar com os familiares sobre o assunto, Ana conta que pretende no futuro discutir o assunto com os filhos, hoje com 4 e 6 anos. Enquanto isso, compartilhou suas experi\u00eancias em uma transmiss\u00e3o no aplicativo Clubhouse.<br \/>Al\u00e9m dos relatos pessoais, h\u00e1 outros ind\u00edcios de uma maior abertura da sociedade para falar sobre o tema. Em Lisboa, os moradores escolheram, dentro do or\u00e7amento participativo do munic\u00edpio, a constru\u00e7\u00e3o de um memorial sobre a escravid\u00e3o.<br \/>A instala\u00e7\u00e3o, assinada pelo angolano Kiluanji Kia Henda, ficar\u00e1 em uma das zonas mais tur\u00edsticas da cidade. A quest\u00e3o agora \u00e9 saber quando isso vai acontecer. Inicialmente prevista para o primeiro trimestre, a obra est\u00e1 atrasada.<\/p>\n<p>O historiador Arlindo Manuel Caldeira, pesquisador da Universidade Nova de Lisboa, destaca que, apesar do papel central de Portugal no tr\u00e1fico de escravos, o tema ainda tem um certo distanciamento para a sociedade portuguesa, como se fosse algo restrito \u00e0s col\u00f4nias.<br \/>A longa ditadura no pa\u00eds (entre 1926 e 1974) tamb\u00e9m tratou de evitar qualquer opini\u00e3o cr\u00edtica sobre a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Era uma ditadura que dava uma import\u00e2ncia grande para as col\u00f4nias, que tinha censura, que controlava o ensino. Isso fazia com que o regime tentasse ocultar tudo o que parecia obscurecer o seu destino colonial. Tanto que ainda se difundiu a ideia de que a escravid\u00e3o portuguesa n\u00e3o foi igual a de outros pa\u00edses, que era muito mais suave, que o relacionamento era muito mais amistoso&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Oficialmente, Portugal proibiu a escravid\u00e3o por meio de uma lei do marqu\u00eas de Pombal, em 1761, sendo um dos pioneiros no mundo. A decis\u00e3o determinava a liberta\u00e7\u00e3o das pessoas escravizadas ap\u00f3s a chegada ao territ\u00f3rio portugu\u00eas. As leis n\u00e3o valiam, no entanto, para as col\u00f4nias. .<\/p>\n<p>&#8220;O Marqu\u00eas de Pombal, ao mesmo tempo que proibiu a escravid\u00e3o aqui, criou companhias de transportes de escravos para o Brasil, para introduzir escravos em \u00e1reas que se considerava que o com\u00e9rcio n\u00e3o estava a abastecer suficiente. N\u00e3o h\u00e1 nessas leis nenhuma inten\u00e7\u00e3o de acabar com a escravid\u00e3o&#8221;, diz Caldeira.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do historiador, a discuss\u00e3o do passado familiar pode ter repercuss\u00f5es positivas. &#8220;No fim, todos n\u00f3s somos descendentes de escravos ou de traficantes de escravos, e \u00e0s vezes de ambos.&#8221;<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, as tens\u00f5es sobre o passado colonial t\u00eam se intensificado, inclusive com propostas para a remo\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos e monumentos ligados \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o. As queixas de discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnico racial tamb\u00e9m t\u00eam aumentado, e o censo de 2021 foi criticado por n\u00e3o perguntar a ra\u00e7a dos residentes no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Mundo<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/mundo\/1804734\/jovens-portugueses-quebram-tabu-e-debatem-passado-escravocrata-de-suas-familias?utm_source=rss-mundo&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Os meus antepassados n\u00e3o s\u00f3 foram traficantes de escravos, como foram um dos maiores traficantes<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":12015,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-12014","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12014","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12014"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12014\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12015"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12014"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12014"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12014"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}