{"id":110678,"date":"2023-02-16T14:08:13","date_gmt":"2023-02-16T17:08:13","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/02\/16\/tomie-ohtake-imaginou-paixao-vermelha-para-a-opera-madame-butterfly\/"},"modified":"2023-02-16T14:08:13","modified_gmt":"2023-02-16T17:08:13","slug":"tomie-ohtake-imaginou-paixao-vermelha-para-a-opera-madame-butterfly","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/02\/16\/tomie-ohtake-imaginou-paixao-vermelha-para-a-opera-madame-butterfly\/","title":{"rendered":"Tomie Ohtake imaginou paix\u00e3o vermelha para a \u00f3pera &#8216;Madame Butterfly&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>GUSTAVO ZEITEL (FOLHAPRESS) &#8211; Infinita vis\u00e3o -parece um sonho a imagem de um navio atracado no porto, o mar revolto. Mas \u00e9 s\u00f3 miragem, o violino num sol maior em pian\u00edssimo, a partitura indicando &#8220;di lontano&#8221; -de longe, em portugu\u00eas. Tudo o que \u00e9 belo j\u00e1 nos \u00e9 distante, talvez porque a pr\u00f3pria m\u00fasica deva anunciar a hist\u00f3ria de um amor imposs\u00edvel.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>A famosa \u00e1ria &#8220;Un Bel d\u00ec, Vedremo&#8221; -&#8220;um belo dia veremos&#8221;, em portugu\u00eas-, resume &#8220;Madame Butterfly&#8221;, \u00f3pera do italiano Giacomo Puccini, com libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, que estreou em 1904, no La Scala, de Mil\u00e3o.<\/p>\n<p>A gueixa Cio-Cio-San diz esperar o tempo que for para reencontrar o tenente Pinkerton, da marinha dos Estados Unidos. Num desvario, pergunta quem se aproxima do litoral e, desesperada, estende os bra\u00e7os em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 plateia, para que todos vejam o desenho da linha do horizonte. Ao recolher o gesto, o sonho se desfaz, e a mulher desata a falar da espera v\u00e3, de sua morte.<\/p>\n<p>Quase oitenta anos depois da estreia, a trag\u00e9dia de Cio-Cio-San provocou uma virada na obra de Tomie Ohtake. A exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Tomie Dan\u00e7ante&#8221;, agora no instituto que leva o nome da artista, mostra como Ohtake se preparou para criar dois cen\u00e1rios para a \u00f3pera, primeiro em 1983, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, depois, em 2008, no Municipal de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma obra em progresso, as telas aqui reunidas parecem um estudo para o que ela faria no espa\u00e7o c\u00eanico, com o uso de cores prim\u00e1rias e o trabalho com diferentes planos&#8221;, diz Priscyla Gomes, que organiza a mostra.<\/p>\n<p>Depois da experi\u00eancia na \u00f3pera, Ohtake projetou esculturas em espa\u00e7os p\u00fablicos das grandes cidades, como a estrela de ferro, posta em 1985, na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, ou a escultura de aura futurista, na avenida 23 de maio, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>S\u00e3o 45 pinturas, todas abstratas, divididas em tr\u00eas atos, assim como na obra de Puccini. Em &#8220;Rasgos e Combina\u00e7\u00f5es&#8221;, est\u00e3o telas dos anos 1960, quando Ohtake imaginava suas pinturas, com pap\u00e9is de revistas, cortados \u00e0 m\u00e3o e agrupados em colagens.<\/p>\n<p>Uma tela sem t\u00edtulo de 1963 tem blocos de tinta preta, um acima do outro, indicando uma determinada dire\u00e7\u00e3o. Esquerda, centro, depois uma guinada \u00e0 direita. As laterais da tela s\u00e3o delimitadas por duas pinceladas espessas em azul.<\/p>\n<p>Parece, afinal, uma cortina aberta, enquanto blocos inc\u00f3gnitos, talvez Cio-Cio-San e sua aia Suzuki, se movimentam ao centro. Noutra pintura, o olhar do espectador percorre mais uma pincelada espessa, vermelha, em forma de meia-lua. Por isso, &#8220;Tomie Dan\u00e7ante&#8221; -o corpo em cena se transfigura de modo abstrato, insinuando movimento e velocidade.<\/p>\n<p>Aqui, a superf\u00edcie da tela \u00e9 o pr\u00f3prio espa\u00e7o c\u00eanico. Do mesmo modo, a expografia dos demais atos da mostra lembra um palco e o cen\u00e1rio imaginado por Ohtake duas d\u00e9cadas depois. As paredes s\u00e3o revestidas por tecidos vermelhos, e as telas, dependuradas do teto em diferentes alturas, larguras e dist\u00e2ncias. Sobretudo, o contraste entre os focos de luz e a escurid\u00e3o valoriza o espa\u00e7o vazio, onde todo drama pode ganhar forma.<\/p>\n<p>Entre a luz e o breu, as obras de &#8220;Tatear a Mat\u00e9ria&#8221;, o segundo ato da mostra, examinam a textura e a transpar\u00eancia das tintas. Ali est\u00e3o expostas as &#8220;pinturas cegas&#8221;, obras que Ohtake executava com uma venda nos olhos. A abstra\u00e7\u00e3o tomava consci\u00eancia de si, na medida em que a artista prescindia da vis\u00e3o, por onde a realidade figurativa se apresentava.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 no terceiro ato, &#8220;Planos e Profundidades&#8221;, que o espectador entende as ambi\u00e7\u00f5es de Ohtake para &#8220;Madame Butterfly&#8221;. Uma explos\u00e3o vermelha toma conta da sala, as telas de grandes dimens\u00f5es refor\u00e7am a opul\u00eancia monocrom\u00e1tica dos tecidos.<\/p>\n<p>Em 1983, a mesma cor foi usada para representar a paix\u00e3o fundadora do libreto. Depois de estudar o padr\u00e3o cenogr\u00e1fico das montagens, Ohtake resolveu rifar a figura\u00e7\u00e3o de Nagasaki, t\u00e3o comum \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>No lugar das cerejeiras e da ponte sobre o rio, a artista pensou em imensos tecidos vermelhos, que chegariam at\u00e9 o piso e mudariam de tom conforme as cores dos holofotes. Seriam v\u00e1rios os tecidos, cada um sustentado numa vara c\u00eanica, apresentado em determinada cena da \u00f3pera.<\/p>\n<p>O projeto foi resumido pela artista numa maquete, concebida em seu ateli\u00ea. No suic\u00eddio de Cio-Cio-San, Ohtake pensou em desfraldar os panos um por um, como a grada\u00e7\u00e3o do arco-\u00edris, mas percebeu que a \u00e1ria seria curta demais para tantos movimentos.<\/p>\n<p>&#8220;O cen\u00e1rio dela causou um enorme estranhamento, mas antecipou uma tend\u00eancia \u00e0s montagens abstratas&#8221;, afirma Andr\u00e9 Heller-Lopes, encenador e um dos diretores do F\u00f3rum Brasileiro de \u00d3pera, Dan\u00e7a e M\u00fasica de Concerto. &#8220;N\u00e3o era f\u00e1cil atuar num ambiente t\u00e3o s\u00f3brio, \u00e0s vezes faltavam objetos para dialogar com a a\u00e7\u00e3o naturalista que se desenvolvia no palco.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, parte do p\u00fablico vaiou a montagem no Municipal do Rio, assinada por Marga Niec. Tamb\u00e9m na plateia, Ohtake ria da rea\u00e7\u00e3o das pessoas, sabendo que de fato incomodava o gosto da \u00e9poca. Segundo Heller-Lopes, artistas pl\u00e1sticos que se aventuram na \u00f3pera podem oferecer solu\u00e7\u00f5es interessantes, mas nem sempre \u00e9 assim. A rela\u00e7\u00e3o entre artista e diretor c\u00eanico costuma ser complicada.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 preciso entender que o objetivo \u00e9 montar uma \u00f3pera, n\u00e3o um videoclipe&#8221;, diz ele. &#8220;No Brasil, algumas montagens se desperdi\u00e7am, porque existe uma tend\u00eancia \u00e0 superficialidade, alguns gestores de teatros n\u00e3o entendem ou mesmo gostam dessa linguagem art\u00edstica.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o era o caso de Ohtake, que tinha no\u00e7\u00e3o de espacialidade e volumetria, como demonstrou em suas obras p\u00fablicas. Para a montagem de 2008, ela preferiu revestir o palco com imensos pain\u00e9is e, no centro do teto, pendurou uma rede de pescadores.<\/p>\n<p>Diretor da montagem, Jorge Takla conta que at\u00e9 tentou tirar a rede, mas foi impedido pela artista. Na vis\u00e3o de Ohtake, o objeto simbolizava o enredamento de Butterfly no amor por Pinkerton, uma armadilha. &#8220;Ela tinha clareza do que gostaria de fazer, era uma sobriedade japonesa, que lembrava as linhas da arquitetura moderna de seu pa\u00eds&#8221;, diz Takla.<\/p>\n<p>Ohtake n\u00e3o atentava somente para a est\u00e9tica do cen\u00e1rio. Tinha uma concep\u00e7\u00e3o particular do libreto de &#8220;Madame Butterfly&#8221;, que seria determinante para a cria\u00e7\u00e3o dos dois cen\u00e1rios. A artista dizia que uma mulher japonesa jamais cometeria ato t\u00e3o grandiloquente quanto o suic\u00eddio, tal como encenado na tradi\u00e7\u00e3o oper\u00edstica.<\/p>\n<p>A estiliza\u00e7\u00e3o era, antes, a busca pelo Jap\u00e3o real. O pensamento de Ohtake se encontrava, enfim, com o principal tema de &#8220;Madame Butterfly&#8221;, o choque entre as culturas do Ocidente e do Oriente. Na m\u00fasica, Puccini fundiu o padr\u00e3o composicional da \u00f3pera europeia com a escala oriental, seguindo o exotismo em voga \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>O libreto, por consequ\u00eancia, refletia o mesmo desejo de conciliar o inconcili\u00e1vel. &#8220;Un Bel d\u00ec Vedremo&#8221;, por exemplo, \u00e9 toda constru\u00edda em discurso indireto -e dentro da l\u00edngua o conflito se desvela. &#8220;Ele vai me chamar de Butterfly l\u00e1 de longe&#8221;, diz a gueixa, mencionando seu apelido em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Sempre num territ\u00f3rio ermo e idealizado, a mulher imagina o amor imposs\u00edvel, e o conflito Ocidente versus Oriente se transmuta numa clivagem interior -Cio-Cio-San versus Butterfly, duas mulheres que se alternam num \u00fanico corpo. Ao cabo do terceiro ato, a impossibilidade, que se manifesta de diferentes formas, se torna insuport\u00e1vel, mas palp\u00e1vel, quando a gueixa descobre o casamento de Pinkerton com Kate.<\/p>\n<p>\u00c9 um arrebatamento sentimental que, no cen\u00e1rio figurativo, se suaviza na delicadeza das flores de cerejeira, \u00e0 brisa soprando do naipe de cordas. Mas, no Jap\u00e3o de Ohtake, a sobriedade das superf\u00edcies planas n\u00e3o significa simplifica\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, mas concentra\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica.<\/p>\n<p>O vermelho de Ohtake agrega e explode o sentido, no ataque dos pratos que anuncia a \u00e1ria final &#8220;Con Onor Muore&#8221; -&#8220;com honra se morre&#8221;, em portugu\u00eas. Cio-Cio-San saca um punhal e o enfia em seu ventre. Pinkerton chama sua Butterfly tr\u00eas vezes, mas a borboleta se desfaz em sangue, no vermelho do imposs\u00edvel amor.<\/p>\n<p>TOMIE DAN\u00c7ANTE<br \/>Quando At\u00e9 19\/03<br \/>Onde Instituto Tomie Ohtake &#8211; r. Corop\u00e9, 88 &#8211; S\u00e3o Paulo<br \/>Pre\u00e7o Gr\u00e1tis<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Cultura<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/ultima-hora\/1992188\/tomie-ohtake-imaginou-paixao-vermelha-para-a-opera-madame-butterfly?utm_source=rss-cultura&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GUSTAVO ZEITEL (FOLHAPRESS) &#8211; Infinita vis\u00e3o -parece um sonho a imagem de um navio atracado<\/p>\n","protected":false},"author":0,"featured_media":110679,"comment_status":"","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-110678","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110678","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=110678"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110678\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/110679"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=110678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=110678"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=110678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}