{"id":110256,"date":"2023-02-14T06:08:19","date_gmt":"2023-02-14T09:08:19","guid":{"rendered":"http:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/02\/14\/exodo-de-garimpeiros-pobres-da-terra-yanomami-tem-medo-da-policia-e-planos-para-guianas\/"},"modified":"2023-02-14T06:08:19","modified_gmt":"2023-02-14T09:08:19","slug":"exodo-de-garimpeiros-pobres-da-terra-yanomami-tem-medo-da-policia-e-planos-para-guianas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/roteironoticias.com.br\/index.php\/2023\/02\/14\/exodo-de-garimpeiros-pobres-da-terra-yanomami-tem-medo-da-policia-e-planos-para-guianas\/","title":{"rendered":"\u00caxodo de garimpeiros pobres da terra yanomami tem medo da pol\u00edcia e planos para Guianas"},"content":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Olha o buru!&#8221; Buru, na linguagem dos garimpeiros, \u00e9 helic\u00f3ptero. Algu\u00e9m, no meio da confus\u00e3o no portinho do Arame, gritou ter avistado um buru no c\u00e9u. Foi o suficiente para transformar confus\u00e3o em caos. Garimpeiros se entocaram no mato. Embarca\u00e7\u00f5es foram arrastadas nas \u00e1guas do rio Uraricoera para serem escondidas. Caminhonetes deram marcha a r\u00e9.<\/p>\n<div class=\"dummyPub\"><\/div>\n<p>Era um alarme falso. N\u00e3o havia helic\u00f3ptero nenhum se aproximando do portinho. O medo era de mais uma a\u00e7\u00e3o do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis) e de for\u00e7as policiais federais para retirada dos mais de 20 mil invasores da Terra Ind\u00edgena Yanomami. Uma opera\u00e7\u00e3o est\u00e1 em curso h\u00e1 uma semana.<\/p>\n<p>O temor se dissipou r\u00e1pido, na mesma velocidade do buru imagin\u00e1rio. O portinho clandestino voltou do caos \u00e0 confus\u00e3o em minutos, e retomou o seu aspecto de fuga e \u00eaxodo, cada vez mais intensos nos \u00faltimos dias. Os garimpeiros seguiram seus caminhos de volta, ap\u00f3s meses ou anos de atividade predat\u00f3ria na maior terra ind\u00edgena do Brasil.<\/p>\n<p>O porto do Arame \u00e9, hoje, o maior entreposto da fuga por terra e \u00e1gua de milhares de garimpeiros que exploravam ouro e cassiterita no territ\u00f3rio tradicional.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o tem dinheiro ou ouro suficiente para um voo acaba caminhando por dias na floresta, at\u00e9 alcan\u00e7ar um barco. De barco, s\u00e3o mais um ou dois dias at\u00e9 o portinho. De l\u00e1, mais duas ou tr\u00eas horas na ca\u00e7amba de uma caminhonete, at\u00e9 a vila Reisl\u00e2ndia -ou Pared\u00e3o-, que pertence ao munic\u00edpio de Alto Alegre (RR), aparecer no horizonte. A saga continua para m\u00faltiplos destinos.<\/p>\n<p>A Folha de S.Paulo acompanhou um dia de fuga dos garimpeiros, com os garimpeiros. Neste domingo (12), a reportagem fez o percurso de Reisl\u00e2ndia ao porto clandestino na cabine de uma caminhonete; permaneceu no Arame para documentar a chegada dos barcos e conversar com os invasores; e voltou na carroceria de uma segunda caminhonete usada para transportar as pessoas para fora dali.<\/p>\n<p>O contato com os garimpeiros, nesse contexto de fuga, temor, vulnerabilidade e movimento incess\u00e1vel, permite tra\u00e7ar um perfil difuso dessas pessoas e compreender as dificuldades do caminho de volta ap\u00f3s o in\u00edcio da retomada da terra ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Um garimpo tem v\u00e1rias camadas. Se uma simplifica\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, essas camadas podem ser resumidas em duas: a de trabalhadores bra\u00e7ais da explora\u00e7\u00e3o de ouro, que s\u00e3o migrantes vindos de diferentes partes do pa\u00eds (especialmente do Maranh\u00e3o) e da Venezuela, e a de operadores da log\u00edstica que ganham dinheiro para viabilizar essa explora\u00e7\u00e3o, inclusive na atual fase de desintrus\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 fazendo as vara\u00e7\u00f5es pela mata e lotando as embarca\u00e7\u00f5es -um barco de 12 metros carrega at\u00e9 40 pessoas de uma vez- s\u00e3o os trabalhadores bra\u00e7ais do garimpo. S\u00e3o raizeiros (trabalhador bra\u00e7al que arranca as ra\u00edzes das \u00e1rvores para a escava\u00e7\u00e3o da terra), jateiros (quem opera os grandes jatos d&#8217;\u00e1gua para revirar a terra), cozinheiras, prostitutas.<\/p>\n<p>Ao longo dos dias, com a intensifica\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es de destrui\u00e7\u00e3o de maquin\u00e1rios e aeronaves pelo Ibama e pela PF (Pol\u00edcia Federal) e com a maior presen\u00e7a da For\u00e7a Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica, aumentou o fluxo de barcos no portinho clandestino.<\/p>\n<p>No per\u00edodo em que a reportagem esteve no local, seis barcos aportaram por l\u00e1. Quatro estavam abarrotados de gente. Dois chegaram mais vazios.<\/p>\n<p>As pessoas transportam suas roupas, galinhas, cachorros, TVs, antenas de internet. O percurso custa quatro gramas de ouro (pouco mais de R$ 1.000). Uma vaga na carroceria de uma caminhonete, mais R$ 400.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado (11), o fluxo foi igualmente intenso. Quem trabalha no transporte contou 20 caminhonetes cruzando a estrada quase intransit\u00e1vel ao longo do dia, cada uma transportando de 10 a 12 garimpeiros na carroceria. Assim, mais de 200 invasores deixaram a terra ind\u00edgena num \u00fanico dia, somente pelo porto do Arame.<\/p>\n<p>Ao longo das duas horas e meia no caminho de volta, na carroceria de uma caminhonete, a reportagem dividiu o parco espa\u00e7o com uma grande quantidade de gal\u00f5es, abarrotados de mantimentos e roupas, e com dois garimpeiros que prosseguiam no longo caminho de volta.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria dos dois maranhenses, na faixa dos 40 anos de idade, \u00e9 um resumo do que ocorre na linha de frente de um garimpo.<\/p>\n<p>Shrek -no garimpo, todo mundo tem um apelido, e quase ningu\u00e9m diz seu nome- ficou dois anos e dois meses na explora\u00e7\u00e3o de ouro nos rios que cortam a terra ind\u00edgena. Ele faz isso desde a d\u00e9cada de 80. J\u00e1 garimpou na Guiana Francesa e j\u00e1 esteve na terra yanomami em diferentes fases da explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Garoto de Ipanema teve uma experi\u00eancia bem curta: tr\u00eas meses. Sempre trabalhou na constru\u00e7\u00e3o civil. No territ\u00f3rio amaz\u00f4nico, foi acometido por sucessivas mal\u00e1rias. Atuou como raizeiro. N\u00e3o quer voltar. &#8220;N\u00e3o valeu a pena.&#8221; Ele pretende retornar ao Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>O destino de Shrek \u00e9 mais incerto. Ele segue entusiasta da l\u00f3gica do garimpo ilegal. &#8220;J\u00e1 enriquei e j\u00e1 fiquei pobre tr\u00eas vezes no garimpo&#8221;, disse. &#8220;Quando que eu consigo comprar um s\u00edtio desse [aponta para um s\u00edtio no percurso feito] se n\u00e3o for garimpando?&#8221;<\/p>\n<p>A Guiana e a Guiana Francesa ser\u00e3o os destinos de diversos garimpeiros com quem a reportagem conversou. Parte deles j\u00e1 esteve em garimpos nesses pa\u00edses, que ficam pr\u00f3ximos de Roraima -o estado fica na fronteira do pa\u00eds com a Guiana.<\/p>\n<p>&#8220;Vou procurar outro lugar. Vou para a Guiana Francesa, a mais comentada. O risco \u00e9 maior, mas tem mais chance de achar ouro&#8221;, disse Chucky, 24. Ele \u00e9 garimpeiro desde os 17 anos, quando terminou o ensino m\u00e9dio em Boa Vista (RR). Os irm\u00e3os mais velhos tamb\u00e9m est\u00e3o no garimpo. Um tem um barco. O outro, maquin\u00e1rio. &#8220;Garimpo \u00e9 independ\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p>No porto do Arame, o som \u00e9 dos motores dos barcos subindo e descendo o rio, mais o das falas simult\u00e2neas dos garimpeiros em busca de transporte para Reisl\u00e2ndia. &#8220;Sa\u00edmos do garimpo, chegamos ao Brasil&#8221;, disse um passageiro de um dos barcos, j\u00e1 em terra.<\/p>\n<p>O cheiro \u00e9 o de lixo, roupas e materiais queimados, num processo de incinera\u00e7\u00e3o constante. Uma caminhonete queimada por policiais numa opera\u00e7\u00e3o passada permanece no mesmo lugar. O temor de quase todos ali \u00e9 perder objetos de valor -inclusive gramas de ouro- em a\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o e desmobiliza\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o.<\/p>\n<p>Cida, 49, e Maria Rita, 46, chegaram no fim de tarde ao portinho clandestino. Uma \u00e9 de Boa Vista (RR), a outra, de Pinheiro, no Maranh\u00e3o. As duas trabalharam como cozinheiras no garimpo.<\/p>\n<p>Cida quer seguir adiante na atividade. &#8220;Vou para a Guiana. L\u00e1 n\u00e3o tem essa press\u00e3o que est\u00e1 tendo aqui.&#8221; Rita, depois de um ano no rio Uraricoera, s\u00f3 quer ir embora. &#8220;Vim para juntar um dinheiro e comprar uma casa. N\u00e3o deu. Vou voltar para o Maranh\u00e3o, trabalhar em ro\u00e7a e na quebra de coco.&#8221;<\/p>\n<p>Louro, 48, tamb\u00e9m \u00e9 maranhense e uma parte de sua vida foi em Borba (AM). A outra foi no garimpo. &#8220;Estou desde os 14 anos no garimpo. J\u00e1 garimpei aqui, em Rond\u00f4nia, no Par\u00e1, no Amazonas e em Mato Grosso.&#8221;<\/p>\n<p>Depois de aportar no Arame, ele seguiu o caminho de volta na carroceria de uma caminhonete at\u00e9 Reisl\u00e2ndia. Louro tem 12 filhos. Teve carteira assinada por menos de dois anos, quando trabalhou na constru\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9tricas em Rond\u00f4nia. &#8220;\u00c9 uma vida muito dif\u00edcil de garimpeiro. \u00c9 o tempo todo fugindo de pol\u00edcia e sendo tratado como bandido.&#8221;<\/p>\n<p>O crescimento e a consolida\u00e7\u00e3o do garimpo ilegal na terra yanomami, permitidos e estimulados pelo governo Jair Bolsonaro (PL), provocaram uma crise humanit\u00e1ria, sanit\u00e1ria e de sa\u00fade entre os ind\u00edgenas, com explos\u00e3o dos casos de mal\u00e1ria, desnutri\u00e7\u00e3o grave e infec\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias -doen\u00e7as associadas \u00e0 fome.<\/p>\n<p>Yanomamis de comunidades em regi\u00f5es como Surucucu e Auaris se viram empurrados e pressionados pelo garimpo ilegal -algumas aldeias foram cooptadas pela atividade garimpeira. Os ind\u00edgenas encolheram suas planta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o t\u00eam \u00e1gua pot\u00e1vel para beber e nem para tomar banho. N\u00e3o conseguem pescar. A ca\u00e7a foi afugentada.<\/p>\n<p>O governo Lula (PT) declarou no dia 20 do m\u00eas passado estado de emerg\u00eancia em sa\u00fade p\u00fablica, com a\u00e7\u00f5es de assist\u00eancia m\u00e9dica na terra ind\u00edgena. Depois, o governo deu in\u00edcio \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Liberta\u00e7\u00e3o, para retirada dos invasores do territ\u00f3rio, com participa\u00e7\u00e3o de agentes de Ibama, Funai, For\u00e7a Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica e For\u00e7as Armadas. A opera\u00e7\u00e3o deve durar entre seis meses e um ano.<\/p>\n<p>No caminho entre Reisl\u00e2ndia e o porto do Arame, dois grupos de ind\u00edgenas irromperam na estrada. Cada um com tr\u00eas yanomamis adolescentes ou crian\u00e7as. Uma est\u00e1 gr\u00e1vida, com a gravidez avan\u00e7ada. Caminhavam sozinhos, sem um adulto por perto, tentando alcan\u00e7ar algum lugar que n\u00e3o a terra ind\u00edgena. \u00c0s caminhonetes abarrotadas de garimpeiros, pareciam invis\u00edveis.<\/p>\n<p>Not\u00edcias ao Minuto Brasil &#8211; Brasil<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.noticiasaominuto.com.br\/brasil\/1991201\/exodo-de-garimpeiros-pobres-da-terra-yanomami-tem-medo-da-policia-e-planos-para-guianas?utm_source=rss-brasil&amp;amp;utm_medium=rss&amp;amp;utm_campaign=rssfeed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(FOLHAPRESS) &#8211; &#8220;Olha o buru!&#8221; Buru, na linguagem dos garimpeiros, \u00e9 helic\u00f3ptero. 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