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Sozinho numa mesa cheia

Sozinho numa mesa cheia
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Há momentos em que o que mais pesa não é a falta de companhia, mas a sensação de que ninguém consegue alcançar aquilo que acontece dentro da gente

Domingo passado a mesa da chácara estava do jeito que eu gosto: cheia. Comida boa, conversa alta, gente querida, cachorro circulando por baixo da mesa na sua ronda oficial de migalhas. Eu estava no meu lugar de sempre, rindo na hora certa, servindo mais arroz, participando de tudo. E no meio daquilo, entre uma risada e outra, me atravessou uma sensação que eu demorei anos pra conseguir nomear: eu estava me sentindo sozinho. Ali. Na mesa mais cheia da semana.

Não me entenda mal, não era tristeza com as pessoas presentes. Era outra coisa, mais fina, mais difícil de explicar. Era como se existisse um vidro invisível entre mim e a mesa, e eu conseguisse ver e ouvir tudo perfeitamente, mas por dentro estivesse num cômodo separado, com pensamentos que não cabiam em nenhuma das conversas em andamento. Já aconteceu com você? De estar rodeado de afeto e mesmo assim sentir que tem uma parte sua que ninguém ali alcança?

Durante muito tempo eu achei que isso fosse defeito de nascença meu. Depois fui descobrindo, nas conversas mais honestas da vida, que é uma das experiências mais comuns e menos confessadas que existem. Solidão acompanhada. Quase todo mundo já sentiu, quase ninguém admite, porque parece ingratidão. Como reclamar de solidão com a casa cheia? Parece deboche com quem está sozinho de verdade. Então a gente cala, sorri, passa a travessa, e a solidão vai ficando cada vez mais bem alimentada ali no cômodo interno.

O que eu aprendi, e olha que ainda estou aprendendo, é que estar acompanhado e se sentir compreendido são serviços diferentes, prestados por empresas diferentes. A companhia resolve o silêncio da casa. A compreensão resolve o silêncio de dentro. E às vezes a gente tem de sobra a primeira e anda em falta da segunda, porque compreensão exige um tipo de conversa que não acontece com a boca cheia de farofa, exige tempo, exige coragem de dizer o que realmente se passa, correndo o risco de não ser entendido.

Naquele domingo, depois que todo mundo foi embora, eu contei pro John o que tinha sentido. Sem drama, só o relato. E ele, em vez de se ofender ou consertar, só ouviu. E o vidro invisível, que passou a tarde inteira instalado, rachou um pouco. Descobri ali que a saída da solidão acompanhada não é lotar mais a mesa. É arriscar uma conversa de verdade com uma pessoa só. O resto da multidão pode continuar passando a travessa.

@enricopierroofc

Célio