O vazio sem endereço
Uma reflexão sobre a angústia silenciosa de sentir algo que não tem nome, não tem origem clara e, ainda assim, pesa no cotidiano de quem tenta seguir em frente enquanto guarda emoções que nunca tiveram espaço.
Tem uma angústia que não tem nome. Não é tristeza, porque a tristeza pelo menos você sabe de onde veio. Não é ansiedade, porque a ansiedade tem um objeto, um medo específico que você pode apontar. É outra coisa. Um vazio discreto, persistente, que fica ali ocupando espaço sem pedir licença e sem apresentar direito.
Eu conheço esse lugar. Já passei muitas horas tentando nomear alguma coisa que não cabia em nenhuma palavra.
O problema é que a gente não sabe muito bem o que fazer com o que não consegue nomear. Se você está triste, existe um protocolo. Se você está com raiva, existe um protocolo. Mas se você está com aquela coisa, aquele incômodo sem endereço, não existe protocolo. Existe só você, sentado, tentando entender o que está sentindo e chegando na conclusão de que não tem certeza.
E aí a tentação é preencher. Colocar mais tarefa, mais compromisso, mais barulho. Qualquer coisa que ocupe o espaço que o vazio está ocupando. Funciona por um tempo. Mas o vazio tem paciência. Ele espera. Eu aprendi, e não foi fácil, que alguns sentimentos não precisam de nome para serem válidos. Que ficar quieto com o que não tem explicação também é uma forma de processar. Que nem toda angústia tem um culpado, nem toda melancolia tem uma causa que vale a pena caçar.
Às vezes o sentimento sem nome é só o resultado de tudo que você foi empurrando para depois. É o acúmulo que virou peso. É você, finalmente parado, sentindo o que não teve tempo de sentir quando estava correndo.
E se for isso, se você estiver passando por um desses períodos em que não sabe muito bem o que está sentindo, mas sente que tem algo pesando, tudo bem não saber. Tudo bem ficar com a pergunta sem responder por um tempo.
Não é fraqueza não saber o que sente. Às vezes é o começo de começar a entender.
@enricopierroofc


