Empresas brasileiras aceleram operações no Mercosul e transformam América do Sul em rota de expansão
Acordos comerciais, digitalização e reorganização das cadeias globais levam companhias a ampliar presença regional e reduzir dependência do mercado interno
Empresas brasileiras começaram a acelerar operações em países vizinhos e transformar o Mercosul em uma das principais rotas de expansão internacional em 2026. O movimento, antes concentrado em grandes multinacionais, passou a ganhar força entre indústrias regionais, empresas de tecnologia e companhias de médio porte que buscam ampliar receita, distribuir riscos e diminuir a dependência do mercado doméstico.
A mudança ganhou impulso após a conclusão do acordo entre Mercosul e União Europeia, formalizado em janeiro deste ano depois de mais de duas décadas de negociações. O tratado conecta mercados que somam mais de 700 milhões de consumidores e prevê redução gradual de tarifas sobre cerca de 90% dos produtos comercializados entre os blocos.
Ao mesmo tempo, a reorganização das cadeias globais de produção, as disputas comerciais entre grandes economias e os custos crescentes de logística internacional reacenderam o interesse por mercados mais próximos e operacionalmente mais previsíveis.
Dados da Confederação Nacional da Indústria indicam que o acordo pode elevar de 8% para 36% o acesso brasileiro ao mercado global de importações de bens. Já a corrente de comércio entre Brasil e Paraguai alcançou US$ 7,3 bilhões em 2025, segundo dados oficiais dos dois países, refletindo o avanço da integração produtiva regional.
O movimento já altera a rotina das empresas. Indústrias estruturam operações comerciais em países vizinhos, companhias de tecnologia ampliam atendimento regional e empresas de logística intensificam a criação de centros de distribuição integrados entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Setores ligados a software, serviços financeiros, máquinas industriais e agronegócio aparecem entre os mais ativos nesse avanço regional. Em muitos casos, a digitalização reduziu custos de entrada e permitiu operações mais enxutas.
Para Marcos Koenigkan, CEO do Think Tank Mercado & Opinião, o Mercosul voltou ao centro das decisões empresariais por razões menos diplomáticas e mais econômicas. “O empresário brasileiro percebeu que depender de um único mercado aumenta vulnerabilidades. A expansão regional passou a ser vista como forma de ampliar receita, reduzir exposição econômica e aumentar competitividade”, afirma.
O Mercado & Opinião promove, no próximo dia 21 de maio, em São Paulo, um encontro voltado à expansão regional das empresas brasileiras. O debate reunirá lideranças empresariais e representantes públicos, entre eles Marco Riquelme, ministro da Indústria e Comércio do Paraguai, Jorge Bunchicoff, presidente da Maquila, Liliana Aufiero, presidente do Grupo Lupo, e Erasmo Carlos Battistella, presidente da Be8.
Apesar do avanço, infraestrutura logística limitada, burocracia alfandegária, diferenças regulatórias e oscilações cambiais seguem entre os principais obstáculos apontados pelo setor produtivo. A Argentina resume parte dessas incertezas. O interesse de empresas brasileiras no mercado vizinho aumentou nos últimos anos, mas a instabilidade econômica e as mudanças frequentes nas regras comerciais ainda exigem cautela.
Para Paulo Motta, vice-presidente do Think Tank Mercado & Opinião, em São Paulo, acordos comerciais ampliam oportunidades, mas não substituem capacidade operacional. “As empresas que devem avançar com mais consistência são aquelas capazes de unir eficiência logística, leitura comercial e adaptação cultural. Internacionalizar exige planejamento, execução e visão de longo prazo”, diz.
Depois de anos associado mais ao discurso político do que aos resultados econômicos, o Mercosul voltou a ganhar relevância prática dentro do planejamento empresarial brasileiro. “Crescer fora do país deixou de ser um passo restrito a grandes grupos e passou a integrar a estratégia de empresas que buscam estabilidade, novas receitas e maior capacidade de adaptação econômica”, conclui Koenigkan.
Da Assessoria


