Aplicação de adubo organomineral exige regulagem específica
Normas do MAPA definem parâmetros do produto e a Piccin relata que ajustes de máquina, calibração frequente e componentes específicos são determinantes para manter faixa de distribuição e uniformidade
Com o Brasil movimentando dezenas de milhões de toneladas de fertilizantes por ano, a eficiência da adubação tem se tornado um ponto operacional crítico na fazenda. Em 2024, as entregas ao mercado brasileiro somaram 45,61 milhões de toneladas, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). No mesmo ano, as importações desembarcadas em portos brasileiros chegaram a 44,3 milhões de toneladas, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Além disso, o mercado apresenta um aumento constante dos preços dos fertilizantes químicos, cresce a busca por soluções que mantenham a eficiência nutricional sem elevar os custos de produção. Nesse cenário, os fertilizantes organominerais surgem como uma alternativa mais econômica, aliando melhor aproveitamento dos nutrientes e maior estabilidade no investimento do produtor. Porém, trazem uma exigência prática: não se comportam como adubos minerais convencionais na máquina, o que altera a estratégia de aplicação.
O fertilizante organomineral é classificado, na literatura técnica, como “produto resultante da mistura física ou combinação de fertilizantes minerais e orgânicos”. A composição combina nutrientes minerais com uma fração orgânica que, no solo, tende a interagir com propriedades físicas, químicas e biológicas, com efeitos sobre estrutura e dinâmica de nutrientes ao longo do tempo, temas amplamente discutidos em publicações técnicas sobre matéria orgânica do solo.
A Piccin Equipamentos orienta que o adubo organomineral deve ser tratado como um insumo de comportamento operacional específico, em razão de características físicas que podem alterar o fluxo e a estabilidade de dosagem durante a operação. Segundo Douglas Fahl Vitor, engenheiro agrônomo e Head de Inovação do Grupo Piccin, “na prática, o organomineral não deve ser visto apenas como uma fonte alternativa de nutrientes, mas como um insumo com comportamento distinto no campo, que exige entendimento específico tanto do solo quanto da forma de aplicação”.
Parâmetros regulatórios e diferenças físicas que afetam a aplicação
Além da formulação, a própria regulamentação ajuda a explicar por que a logística e a distribuição mudam. A Instrução Normativa nº 61/2020 estabelece requisitos para fertilizantes organominerais e, no caso de produto sólido, define, entre outros pontos, carbono orgânico mínimo de 8%, umidade máxima de 20% e CTC mínima de 80 mmolc/kg. Esses limites são superiores, em especial no quesito umidade, ao que normalmente se observa em fertilizantes minerais granulares, e tendem a influenciar a fluidez, risco de empedramento e estabilidade do fluxo no sistema de dosagem.
No campo, segundo Fahl, as diferenças físicas aparecem em variáveis como granulometria, densidade e uniformidade de partículas. Organominerais podem ser encontrados em pó, farelado ou granulado e, mesmo quando granulados, podem apresentar maior variação de tamanho e formato por causa da diversidade de matérias-primas. Essa variação interfere no escoamento, na resposta à vibração/agitação e na regularidade de vazão do reservatório ao sistema de distribuição.
O que muda dentro da máquina: fluxo, dosagem e estabilidade
De acordo com o especialista da Piccin, a maior umidade e a menor uniformidade elevam a probabilidade de falhas de alimentação do produto, com ocorrência de túnel, ponte e oscilações de descarga. “O produtor que está acostumado a aplicar adubo químico não pode simplesmente repetir as mesmas regulagens no organomineral, pois isso geralmente resulta em aplicação irregular, falhas e perda de eficiência”, afirma. Outro ponto aqui é o diferencial das soluções da Piccin, por exemplo, que permitem a aplicação de diferentes tipos de materiais como químicos, corretivos e orgânicos.
A consequência direta desse comportamento é a necessidade de regulagens mais sensíveis do que as usadas em adubos minerais tradicionais. Em equipamentos de aplicação a lanço, por exemplo, a resposta do produto a ajustes de abertura e rotação de discos tende a ser diferente quando há maior umidade e variação de partículas. Já nas em linha (localizada), a regularidade de deposição depende da estabilidade do fluxo e do controle da taxa na esteira ou dosador.
Onde a operação costuma falhar
Um dos pontos recorrentes é a escolha de componentes e suplementos inadequados para o produto. No caso de aplicação a lanço, a Piccin indica o uso de palhetas específicas para orgânicos, corretivos e organominerais, com geometria e resistência voltadas a materiais mais úmidos e heterogêneos. Na localizada, a empresa aponta que a estabilidade de dose ao longo da linha depende do ajuste correto da velocidade do sistema de aplicação.
Outro ponto é a calibração. A variabilidade física do organomineral, sobretudo por alterações de umidade entre lotes, armazenamento e exposição ambiental, tende a exigir aferições mais frequentes da taxa real aplicada.
Impacto direto no campo
A faixa efetiva de trabalho e a uniformidade de deposição dependem do casamento entre dose, velocidade e padrão de distribuição do produto. A Piccin relata que, em organominerais, pequenas variações de regulagem e produto podem reduzir a faixa efetiva prevista, e/ou a uniformidade de aplicação e comprometer a aplicação como um todo, criando zonas com deficiência e zonas com excesso no mesmo talhão. Esse efeito aumenta a variabilidade intra-áreae pode dificultar decisões posteriores de manejo, por exemplo em correções e adubações complementares e até mesmo a resposta de produtividade.
No recorte de engenharia de aplicação, o head de inovação da empresa afirma que a Piccin desenvolveu sistemas para manter regularidade de transporte e distribuição em diferentes classes de insumos. “A Esteira Precisa Piccin foi desenvolvida para trabalhar com diferentes tipos de fertilizantes, mantendo boa capacidade de transporte e uniformidade tanto para adubos minerais tradicionais quanto para organominerais”, cita. Além disso, ele aponta que a configuração do distribuidor pode variar conforme o material, permitindo alternar entre uso com fertilizantes minerais e com corretivos/organominerais, além de opções de aplicação direcionada sob copa e aplicação localizada na linha, a depender do sistema produtivo.
A presença de fração química na mistura e o contato prolongado de resíduos no equipamento tornam a limpeza pós-operação e a manutenção preventiva pontos de rotina. A recomendação operacional reportada inclui inspeções periódicas de esteiras, discos, palhetas, assoalho, rolamentos e componentes de desgaste, além de uso dentro das condições indicadas pelo fabricante para cada modelo.
Solo, matéria orgânica e sustentabilidade do sistema produtivo
No médio e longo prazo, o desempenho do organomineral não depende apenas da dose aplicada, mas também da interação com o solo e do histórico de manejo. Publicações técnicas da Embrapa sobre matéria orgânica descrevem que, embora represente pequena fração da massa do solo, a matéria orgânica influencia propriedades físicas, químicas e físico-hídricas, além de atuar como substrato para a biota do solo.
Também é importante destacar, segundo o engenheiro agrônomo, que o avanço das tecnologias de diagnóstico de solos com base no tipo de argila, e não apenas na sua quantidade, representa um salto importante na tomada de decisão agronômica, especialmente nesses casos. Essa abordagem permite compreender com mais precisão o comportamento químico e físico do solo, como retenção de nutrientes, dinâmica da água e interação com corretivos e fertilizantes, tornando as recomendações de manejo mais assertivas. “Com isso, o produtor consegue ajustar doses, escolher melhor as fontes nutricionais e aumentar a eficiência das operações, reduzindo desperdícios e elevando o retorno técnico e econômico no campo”, finaliza o head.


Kassi Bonissoni



